VASTIDÃO



Sua respiração levantava uma fumaça leve que sumia por entre seu casaco. Tinha de se esforçar bastante para atingir o cume da montanha antes do escurecer. A neve caia fraca e lentamente à sua volta, refletindo os raios de sol como se fossem prismas. A paisagem se mantinha no limiar do sobrenatural.

O único som que acompanhava seus passos era o da neve que batia em suas costas e sumia emitindo pequenos chiados. Sons inaudíveis para ouvidos desacostumados com a realidade e o ambiente da grande montanha silenciosa e gelada.

Seus pés, enterrados até o tornozelo só não congelavam porque o pai, artífice zeloso, havia costurado por noites a fio aquelas botas. Sempre apertando os laços, ao mesmo tempo, que deixava cair o óleo de baleia, permitindo o endurecimento do material, que impediria a fuga do calor.

Suas mãos estavam envolvidas por luvas feitas de pele de urso. Cerzidas com carinho e atenção por sua mãe. Que sonhara com aquele dia, desde o momento que ele nasceu e foi predestinado a fazer aquele caminho.

Era o costume da sua tribo. Que todo filho homem nascido no período da grande caçada deveria subir sozinho a grande montanha. Para assim bem lá no topo, observar a vastidão do mundo, do universo. Pois seus pais, e os pais de seus pais, e assim por diante, através de toda sua descendência, acreditavam que o olhar sob a grande montanha traria o olhar do universo sobre a tribo. Permitindo que o sacrifício de um se tornasse vida para todo o resto.

Era um sacrifício. Fosse apenas o esforço de subir uma montanha. Fosse apenas de ter a solidão como companhia todo o caminho. Ao mesmo tempo. Que se deixava à mercê daquilo que a montanha estivesse guardando para ele.

Ele ouviu histórias antes de partir. Histórias de pessoas como ele que subiram a montanha e nunca mais voltaram. Ao mesmo tempo, histórias de pessoas que retornaram, na forma de sonhos ou de grandes aves feitas de gelo. Que iluminavam a tribo por um longo tempo, abençoando a todos com o sacrifício que fizera.

Era por isso que ele não desistia e continuava. O gelo caia forte nesse momento. Mas nada o impediria de observar o universo através do cume da montanha. Seus pés pesados queriam parar, mas ele não desistia. Seu corpo alquebrado pedia um momento de descanso, mas ele sabia, que a neve tornaria um segundo uma eternidade gelada. Então não descansava. Nenhum instante.

E continuou por todo o dia. E enquanto a neve o permitiu. Continuou ele observando o sol. Que o guiava sempre para cima. E no momento que o sol sumiu. A neve começou a diminuir.
Seus braços tremiam sob o grande manto que trazia aos ombros. A boca rachada pelo frio se abriu num sorriso. E ele pode olhar por um só instante. Através dos últimos passos que suas pernas e pés permitiram dar. O cume da montanha.


Além dela, existia o universo silencioso. Com milhares de estrelas brilhando sob o céu. E bem no centro. Olhando diretamente para ele. A grande lua. Que o banhava com seus raios.
As poucas lágrimas que caíram de seus olhos congelaram antes de chegar ao chão. Seu peito suspirou duas vezes e ele fez um último esforço para olhar. E nesse momento ele abriu os braços…

… e asas rufaram quando ele alçou vôo.

“Vivemos numa ilusão de segurança. Mas nos escondemos em cavernas de vidro e subimos em árvores de concreto. Até nossa música retumba com os tambores do passado. Homem primata!”



Creative Commons License
Vastidão by JBAlves is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.