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UM TEXTO QUASE PERFEITO.

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Pelas margens infinitas do Rio Procrastinate onde nada se move, nem a poeira, ondas ou espuma, caminhavam no prelúdio do processo de criação, duas figuras altas e magras chamadas de Imaginatio e Editio. Eram figuras estranhas, cuja aparência era tão etérea que quase não possuía forma definida, nenhuma sombra os acompanhava e seus pés não deixavam marcas na areia.

De onde vinham? Talvez uma rápida emoção as tivesse criado, ou talvez fossem filhas de uma memória antiga que apareceu em um arroubo de inspiração. Mesmo assim, conservavam o silêncio e a dignidade enquanto marchavam sem ruído observando e pensando no que poderiam fazer em breve.

Tudo isso acontecia no início da noite, naquela hora em que diferentes criaturas e situações borbulhavam, naquele universo que era a mente de um escritor.

Com a cabeça enfiada na areia, algumas ideias, gordas e vergonhosas se remexiam, criando assim uma sombra enorme, que refletia trêmula sobre as águas. Enquanto isso referências antigas, esticavam seus grandes tentáculos que pareciam, ao longe, estranhas vergas de junco, enquanto limpavam os longos bicos sujos de sangue e perscrutavam o deserto do esquecimento que existia além do pensamento.

Mas no interior daquela mente, o solo era fértil, e em alguns pontos estava nascendo um lindo campo de flores poesia, pequenos contos ou árvores história, encobrindo assim a secura do deserto e criando um profundo tapete de devaneios e vida, onde pequenas sementes germinavam e cresciam, fervilhando e alimentando um mundo de conteúdos novos e assustados que ainda reagiam com a emoção por estarem sendo quase finalizados.

imagesAlguns prólogos agiam como monstros gigantescos, testando suas grandes mandíbulas assassinas enquanto mal se sustentavam nas pernas finas e pouco finalizadas que ainda estavam em processo de crescimento, e que por isso representavam na fragilidade de seus corpos a umidade das idéias escritas na véspera.

Os capítulos finais apenas guinchavam, presos em suas pequenas tocas, mal vestidos de uma lanugem recente. Enquanto alguns capítulos intermediários já se escondiam, nas touceiras espalhadas entre as árvores, tentando sobreviver aos primeiros momentos de sua concepção.

As gírias vertiam um líquido pastoso, tal qual anuros do azul mais peçonhento, enquanto contemplavam o momento que seriam escolhidas rio abaixo. Sua agressividade era palpável enquanto boladas, apertavam seus olhos cegos e cotidianos, na tentativa de se organizar em grupo.

Verbos taciturnos, sacudindo todo o seu discernimento, se arrastavam empapados, enquanto arrancavam feixes da relva que apodrecia perto do banhado, intimidando uns aos outros, mordendo e ferindo, até que um deles tivesse o domínio do bando.

Aqui e ali os personagens pastavam em grupo, colhendo com as mãos nuas, ramadas verdes de contos, bem no meio da relva vicejante. E as vezes, aqui e ali, um deles já totalmente desenvolvido corria ligeiro. E com esse acontecimento, as outras criaturas o fitavam, com um ar de indagação como se tentassem entender, por que ele merecia tanta cortesia naquele enredo inicial.

2Gustave-Dore-Geryon-Informações escritas, grande e gordas, limpavam suas garras de modo enfadonho. E nem mesmo um dado digital, adejando de forma célere próxima deles, despertava seu interesse.

Em um passo lúgubre, Imaginatio e Editio caminhavam, olhando, sem fascínio, para as maravilhas criadas pela mente do escritor. Fortuitamente andavam lado a lado. Pois a imaginação gosta de aparecer primeiro, ora de maneira mais explosiva, ora de maneira mais exaltada; já a edição, sempre acontece no mesmo ritmo, selecionando, limpando e organizando sem exageros.

Como que predizendo o que os dois espectros poderiam fazer, as criaturas em volta ficavam eriçadas, e eram arrebatadas por um angustiante desespero. As plantas, ainda mal formadas na beira do rio, se contorciam, alarmadas. As criaturas trocavam olhares tensos e mesmo a brisa quente que soprava do deserto, e que carregava o próprio esquecimento, parecia soprar mais lentamente, se aproximando de forma firme, porém cautelosa, daqueles dois antagonistas.

Abruptamente, como se uma barreira invisível tivesse se erguido, Imaginatio interrompeu seus passos, deixando que Editio chegasse um pouco mais perto.

– Porque será – Disse de forma abafada e imaginativa – que o escritor nos trouxe para esse oásis ornamentado por tantas criaturas e formas diferentes?

Editio considerou por um instante a pergunta, e abrindo um sorriso que trazia fileiras de dentes pontiagudos, vislumbrou todos os limites do jardim de forma detalhada, o que fez grasnar até mesmo algumas referências antigas próximas dali.

– Será que fomos convidados, para quem sabe, criarmos nós mesmos, com as nossas mãos, um texto que fosse, dentro dessa mente, um item perfeito criado com muito zelo? Tenho certeza que se surgisse um rebento, ele seria bem superior a tudo que existe aqui.

Imaginatio olhou para o céu e seus olhos cintilaram enquanto ele cultivava devaneios.

– Um texto só nosso, com certeza, não teria prólogos tão sem contexto ou finais tão abruptos. Nossas ideias e referencias seriam infinitamente superiores e de forma alguma eu deixaria os verbos sem o acompanhamento adequado.

– E é claro que as gírias seriam aniquiladas. – Resmungou Editio de forma predadora – Eu nunca deixaria passar uma expressão de baixo calão! Então, aceitas?

Imaginatio concordou, deslocando sua forma etérea, ao lado de Editio, para a margem do rio. Lá, começaram a balançar os braços como se escrevessem, e como bruxaria, pedaços do texto começaram a surgir.

160746bf6c4b7f215e6d177027d49f82– Eu lhe darei imagens, ideias, concepções. – Disse Imaginatio, puxando da areia a substância necessária para moldar os significados.

– Eu darei normas, alterações e correções nunca antes vistas. – Complementou Editio trazendo do fundo do rio pedras brutas que eram polidas e afiadas até ficarem parecidas com seus dentes.

E assim trabalharam durante várias horas. De forma rebelde e selvagem as imagens e concepções se recusavam a permanecer no mesmo lugar.

– Produza mais normas e correções! – Pedia Imaginatio. E Editio erguia mais pedras do fundo do rio, afiava e polia antes de inserir no fundo do texto.

E assim a cabeça da introdução, o corpo do desenvolvimento e os braços e pernas da conclusão começavam a tomar forma. As vezes de uma maneira ordenada, outras vezes de uma maneira totalmente caótica.

– Mais normas! – Pedia Imaginatio toda vez que o texto ficava mais agitado.
– Mais ideias! – Replicava Editio toda vez que os pedaços começavam a perder o encantamento.

Horas se passaram, e o texto que nascia era realmente uma criatura bem diferente. Era uma imitação das coisas que existiam naturalmente na mente do escritor, mas aquilo não se parecia com as demais criaturas, embora guardasse nas suas formas e capítulos uma recordação distante de tudo o que existia a volta.

O texto apresentava algumas referências antigas mas podia correr como um personagem principal. Tinha dentes pontiagudos que lembravam a mandíbula dos prólogos e um corpo muito forte, capaz de vencer o maior de todos os verbos.

O surgimento daquele estranho causou horror em todas as criaturas do jardim. Guinchos e gritos ecoavam pelo ar, enquanto muitos personagens se escondiam atrás das árvores e do mato alto. Mesmo os verbos e as referências antigas, reconhecendo a força daquele texto estranho, mostravam os dentes e as garras tentando impedir a invasão de seu território por aquela forma desconhecida.

Mesmo diante da repulsa de todas criaturas, o texto perfeito avançava, pela margem do rio, sendo sempre protegido, lado a lado, por Imaginatio e Editio.

Tendo certeza da superioridade de sua criação, os espectros riam do medo e do caos que sua passagem causava. E o Texto, acreditando na sua superioridade, perseguia e atacava todas as coisas à sua GustaveDore-Ariostovolta.

Os dias se passaram e o texto cresceu e se tornou cada vez mais perfeito, porém, o orgulho de Imaginatio e Editio trouxe a desgraça para seu filho, pois quando eles se desviaram de seu obrigação que era ajudar o escritor, um bloqueio criativo nunca antes visto se estabeleceu e começou a diminuir todo o jardim, apagando tudo o que existia a sua volta.

Imaginatio e Editio tentaram reescrever partes do jardim, mudaram o ritmo do rio e até mesmo inseriram algumas cenas dramáticas como tentativa de barrar o deserto. Mas o esquecimento é inexorável e a saturação causada pelo seu filho era grande demais para aquele lugar.

Sem saída, os dois espectros começaram a discutir, tentando jogar a culpa um no outro da condição de tudo o que havia acontecido.

– A culpa foi sua com esse excesso de regras! – Gritava Imaginatio.
– O problema sempre foi a sua falta de objetividade! – Retrucava Editio.

Por fim, começaram a disputar até mesmo o direito pelo texto que criaram juntos.

– Quem o criou fui eu! – dizia Imaginatio.
– Mas fui eu quem contribuiu com as normas – Fui eu! – gritava Editio.

– O que você faria sem minhas concepções?! E o que você faria sem minhas alterações?!

759px-132.Daniel's_Vision_of_the_Four_BeastsLamentavelmente, nenhuma voz de reconciliação ecoou, uma vez que o escritor estava preso em meio ao bloqueio criativo. Sendo assim, como derradeira atitude, ambos os espectros decidiram dividir o texto perfeito

– Eu pego de volta as imagens, ideias e concepções. – disse Imaginatio, puxando do texto tudo aquilo que ele havia criado.

O corpo do texto perfeito, sem nenhuma gota de imaginação, começou a se solidificar, tornando-se apenas um conjunto de linhas e palavras sem sentido.

– Eu retiro todas as normas, alterações e correções que implementei. – Complementou Editio arrancando do fundo do texto petrificado tudo o que estruturou.

De repente, os restos do texto perfeito começaram a se dissolver e se espalhar. E como não havia mais nada naquele lugar Imaginatio desceu para o fundo do leito seco do rio enquanto Editio flutuava para a direção contrária.

E o tempo foi passando. E o deserto do esquecimento, continuava a soprar um vento quente em direção do grande muro que era o bloqueio criativo.

Então, aqui e ali, pequenas rachaduras começaram a surgir, criando assim mais uma nova oportunidade para o crescimento das sementes sobreviventes e quem sabe a redescoberta de um novo texto escondido por debaixo de toda aquela areia.

E foi nesse momento que o escritor pode retomar a criação de seu jardim.

– Imagens de Paul Gustave Doré. Paul foi um pintor, desenhista e o mais bem-sucedido ilustrador francês de meados do século XIX. Seu estilo se caracteriza pela inclinação para a fantasia, mas também produziu trabalhos mais sóbrios.

– Texto inspirado na obra O MONSTRO escrita em 1932 de Humberto de Campos. Humberto foi um jornalista, político e escritor brasileiro eleito para a cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras, assento cujo patrono é Joaquim Manuel de Macedo.

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E segue abaixo mais algumas sugestões de leitura:

Leia o Ebook “CONTOS DE TERROR”!

Porque devemos ler histórias de Fantasia?

A origem de Holmes16.

 

5 respostas
  1. Marcus Vinícius
    Marcus Vinícius says:

    Se eu não me engano, Paul Gustave Doré fez ilustrações do Inferno descrito pelo poeta Dante.

  2. Logan Solo
    Logan Solo says:

    Genial! Juliano, esse pequeno texto realmente celebra o Dia do Contador de Histórias, comemorando e enaltecendo o trabalho árduo dos que passam ideias de sua imaginação fértil e criativa.

    Como sempre, muito bem escrito e imaginado.

    Parabéns, me parece que todos os temas que você escolhe se transformam em um mar de deslumbramento literário.

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