Posts

,

Para refletir…

 …

A vida é breve.
Nada vence o tempo.

As memórias desvanecem.
Nada perdura.

Apenas o pouco que criamos pode continuar.
Como um eco, um reflexo.

Uma sombra do que se foi.

 …

 

,

De luto pois aconteceu uma tragédia…

Algumas filosofias dizem que as coisas acontecem sempre no momento certo. Que nada do que você faz ou deixa de fazer é sem sentido. Que devemos refletir sobre todas as coisas que acontecem em nossas vidas.

No entanto a morte por acidente, principalmente de alguém próximo sempre nos pega de surpresa. Nos deixa sem ar quando aquele a garganta da um nó. É um sentimento de confusão. Quase como um soco no estômago que te faz lembrar que você está vivo e eles, não. Leia mais

,

Quando uma rima se acaba…

No futuro próximo
em várias ocasiões
ou de vez em quando
Um portão, porta, portal de entrada ou varanda.
Um forma de entrada ou passagem se abrirá.

Então você saberá as regras ?
Ou pedirá por mais tempo?
Talvez o resultado seja difícil ou sem graça
ou tudo o que você tenha feito se transforme
em outros tipos de rima.

Mas aqui, você vive um padrão fixo de ti.
Que pena ainda não poder rimar!
Mas continue digitando na internet.
Pois um dia a frase, a palavra e a sinopse,
é claro que chegam ao fim.

Você pode se sentir vencido
ou até pagar uma dívida com a natureza.
No final pode parecer destruição total.
De um ponto ou extremidade.
De uma saída ou partida.

Em um verso final que rima com morte,
e que termina, com apenas um suspiro…

Todos passarão por essa porta, um dia...

Todos passarão por essa porta, um dia…

, , , , ,

Enquanto a grande Tartaruga singra o espaço…

… o fantástico criador do mundo Discworld deixa esse plano de existência aos 66 anos.

images

 

“É com tristeza incomensurável que anunciamos que o autor Sir Terry Pratchett morreu. O mundo perdeu uma dos suas mais brilhantes e afiadas mentes. Descanse em paz Sir Terry Pratchett”.

 

Foi com essas palavras no facebook do escritor que eu fiquei sabendo de sua partida.

Pratchett morreu cedo, aos 66 anos , por causa de uma forma rara do Mal de Alzheimer chamada atrofia cortical superior. Sendo assim, nada mais correto do que deixar aqui algumas palavras em homenagem a um dos grandes escritores de fantasia, um mestre na arte de escrever sátiras brilhantes e inspiradoras.

GaimanPratchettHC-725803

Terry Pratchett & Neil Gaiman

A primeira vez que eu tive contato com o trabalho de Terry Pratchett foi através do livro Belas Maldições que ele escreveu em conjunto com Neil Gaiman, outro grande mestre da Literatura Fantástica.

Ele escreveu mais de 70 livros e suas obras foram traduzidos para mais de 36 idiomas e suas idéias inspiraram diversos jogos, quadrinhos, filmes para a TV, programas de rádio, teatro e música e por causa de suas contribuições para a literatura, ele  foi nomeado cavaleiro da Rainha.

 

“Deus não joga dados com o universo. Ele joga um jogo inefável de sua própria criação, que poderia ser comparado, da perspectiva de qualquer um dos outros jogadores, (todos os dois) a estar envolvido numa obscura e complexa versão de pôquer numa sala completamente escura, com cartas em branco, por apostas infinitas, com um crupiê que não lhe diz quais são as regras, e que sorri o tempo todo.” – Passagem do Livro Belas Maldições
Leia mais

, , ,

Balada de um corpo seco…



Por caminhos sem nexo tropeçamos
com olhos quebrados e mente cega
pernas secas e idéias destroçadas.
Nada para nos aliviar o peso da viagem.
Ainda assim, perseveramos
Pois nossas lembranças e esperanças nos acalentam,
e nos ajudam a prosseguir.
Mas ainda assim, nada é simples.

Deixamos nossos irmãos mortos pelo caminho
e só restou o pó de nossas nossas vitórias
apenas espadas quebradas e sem fio. 
Sujas de nosso próprio sangue.

Nada mais nos resta,
nada é importante.

Apenas progredimos pela trajeto deserto,
além da vida,
da esperança e
do desejo.

Continuamos sem cessar atrás do nosso destino.

Mesmo com a barriga inchada,
os sentimentos cegos e
as mãos mortas, nós avançamos.

Não somos mais corajosos,
Apenas esquecemos o que é perder.

Não somos mais fortes,
Meramente ultrapassamos o limiar.

E penosamente não morreremos,
Pois até mesmo a vida já nos abandonou…







E para quem gosta do tema:



, ,

Gotas de chuva não lavam a dor de um velório.

Uma chuva leve caia de maneira impertinente durante à tarde. Como lágrimas, as gotas de chuva tentavam lavar os pés enlameados que avançavam pela rua em direção do velório. Sua mente ainda não conseguia acreditar! Aquele maldito acidente primeiro ceifou a vida de seu melhor amigo. E agora, poucos dias depois, ele recebeu a assustadora notícia que a sua ex-namorada e paixão dos idos de infância também faleceu por causa da gravidade dos ferimentos.
 
 
Ele não conseguia pensar direito. Cambaleava pela rua enquanto uma dor insistente teimava em queimar o seu coração. Sua cabeça, pulsava no mesmo ritmo que a chuva. E cada gota que batia em seu jaqueta soava como uma agulha, torta e enferrujada que explodia a sua volta e levava para o esgoto o que restava de seu autocontrole.

Sentia-se amargurado e esquecido. E seus pés encharcados quase se afogavam dentro dos sapatos velhos que faziam par com a sua roupa batida que já não podia ser chamada de terno por causa da quantidade de remendos que tinha.

Leia mais

, ,

Reflexões de um pensamento.

soul

“O mito é o nada que é tudo
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos braços.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre
De nada, morre.
 
(Fernando Pessoa )

Um corpo pode ser reconhecido como um conjunto de várias partes que compõem um animal. Após a sua morte esse corpo é considerado um cadáver. O corpo humano, como o de outros mamíferos, é geralmente dividido em cabeça, tronco e membros.

Esse corpo, o meu corpo em especial, está deitado em uma fria mesa de metal no mais profundo e indistinto morgue da cidade. Morgue, ou necrotério, é o local onde são guardados os cadáveres e se realizam exames periciais visando determinar a “causa mortis” ou causa da morte.

Esse necrotério, pode ser encontrado no Continente das Américas, bem no sul do Brasil, em uma pequena cidade no norte do Paraná, na Rua Edgar Alan Poe número 1849. É um estabelecimento distinto e sem nenhum detalhe aparente, atendido e frequentado constantemente por médicos legistas, especialistas forenses, góticos ou simplesmente pessoas estranhas ao próprio estado da morte.

A Morte, óbito, falecimento ou simplesmente passamento são os termos que conheço para o término da vida de um organismo. A situação que ocorre para a transformação de um corpo em um cadáver.

Pode parecer estranho, e até mesmo mórbido essa minha análise. Isso se eu estivesse olhando um cadáver em uma mesa de ferro atrás de um balcão do necrotério. Mas na realidade, ou dentro de meus pensamentos, eu estou na realidade olhando para o meu corpo, o meu cadáver, do alto da sala desse mesmo necrotério.

Acredito que não é a loucura que me atinge, ou mesmo um sonho muito realista. Mas não sei também se estou morto, observando meu próprio cadáver a poucos metros de mim. Digo isso porque em nenhum momento fui avisado pelo anjo da morte ou mesmo tive contato com o famoso túnel de luz que me avisa e guia meu passamento.

Ainda assim, a morte é o fenômeno natural que mais motiva as discussões na religião, ciência e filosofia, é ela que envolve o homem desde o princípio dos tempos moldando seu misticismo, sua noção do que é magia, seus mistérios e seus insondáveis segredos.

Não sei mesmo o porquê desses pensamentos e análises. Nem o porquê dessa incomum necessidade de entender que me atinge neste momento. Se tudo é vaidade, ou mesmo ilusão eu não sei. Devo estar apenas me apegando a minha vida mundana, ou se der atenção ao meu cadáver abaixo à minha antiga vida mundana.

Não sei se devo acreditar em vida após a morte ou mesmo em reencarnação. Sinto que se começar a refletir sobre isso, itens diferentes poderão surgir e me incomodar, talvez o medo do inferno ou mesmo o medo de reencarnar em um corpo diferente do que tenho, ou tinha.

Consigo imaginar dezenas de antropólogos debatendo o tema da morte em um salão vazio, imaginando os ritos fúnebres de todos os homens que morreram e se tornaram cadáveres antes deles.

Simbologias e crenças misturadas com imaginação e medo. Sensações que nunca podem ser retiradas da balança, mas sempre são ignoradas por todos os pontos de vista da ciência.

Estranhos pensamentos que esse meu estado de “consciência” está tendo. Não sei bem se é o meu desligamento da matéria ou se é apenas minha maneira de expressar meu estupor e surpresa por ser voyeur de meu próprio cadáver.

Em que devo acreditar? Em quem devo me apegar? Sobre o que devo refletir? Pra quem devo orar, pedir, clamar ou mesmo me humilhar? São estas as perguntas que penso enquanto flutuo lentamente nessa sala vazia de vida, cheia de cadáveres.

Se fosse pensar em termos de anatomia, fisiologia ou mesmo tecnologia, eu teria os nomes, termos, crenças e teorias. Mas o que me resta agora nesse estado incorpóreo são a análise lógica e a fé cega.

Mas mesmo isso não passa de mero reducionismo, pensar que minha morte pode ser explicada pela biologia ou entendida pela fé não passa de uma mera e simples ilusão. Principalmente porque, de onde me encontro, a mais ou menos dois metros e meio de meu cadáver, eu não tenho nenhum motivo em descartar ou escolher alguma dessas opções.

Desde o tempo dos gregos se tenta explicar essa dicotomia, essa dissociação. Platão dividiu o homem em corpo e alma, mas tenho certeza que ele mudaria de opinião e seu pensamento platônico do mundo seria alterado se passasse pelo que estou passando agora.

Se pensar em Lacan e no seu conceito, de que o corpo é o espelho da mente, eu vou me reduzir a um pensamento incômodo e indiscreto que fica observando meu próprio cadáver sem cor e sem vida.

Argh! Mesmo o que conheço de Nietzsche não me traz respostas! Pois tudo parece subjetivo demais, ilusório demais, estranho demais para minha mente, pensamento, alma ou consciência entender.

Essa experiência de desencarnar não é incômoda, não sinto palpitação, mãos tremendo, joelhos trêmulos ou respiração entrecortada. Na realidade, não sinto nada, sou apenas uma voz na cabeça, sem cabeça! Hehe.

Acho que minhas células podem estar desligadas, mas meus chacras não. É como se meus centros de energia continuassem bombeando energia pra meus pensamentos e meu eu psicológico, mantendo assim um eu moral.

Será que isso vai continuar indefinidamente, ou só é preciso cremar meu corpo para que isso também se apague? Quanto tempo me resta agora que parte de mim virou um cadáver? Será que ficarei assim, flutuando nessa sala mal iluminada por todo o tempo?

Muitas questões sem resposta. Se eu fosse mais materialista seria apegado demais ao corpo físico e acreditaria que vou sumir, ou poderia viver a ilusão de que não estou morto e que logo vou me recuperar, pois estou apenas vivendo uma experiência de quase morte. Besteira! Mesmo eu sei que aquele corte de fora a fora em meu cadáver nunca vai poder ser fechado de novo.

Eu observei o legista me abrindo. Li minhas entranhas na tentativa de conhecer meu futuro. Na idade média, essa prática era feita com os pombos mas eu fiz isso com meu próprio corpo visando entender minha condição peculiar.

Interessante que a tranqüilidade que sinto agora é diferente de todas as que já tentei sentir. Não existe nenhuma pressão biológica competindo com minhas pressões psicológicas. Por enquanto sou apenas pensamento. Um pensamento com um leve humor negro, mas um pensamento.

Acho que o espiritismo e outras crenças esotéricas chamariam meu estado de perispírito, corpo fluídico ou mesmo de estágio desencarnado. Com tranqüilidade eu poderia gritar para todos que não me sinto assim. Na realidade não sei como devo me sentir.

O que estou passando parece, beeem de longe, com aquela sensação que temos quando bebemos demais e o corpo entorpecido começa a se desligar da mente embriagada. Um não sente o outro, mas ambos sabem que estão próximos. Talvez seja a ligação remanescente dessa energia que faz de mim o que sou agora, o pouco que resta de vida em meu cadáver. Lembro que meus cabelos e unhas ainda vivem e continuarão crescendo no caixão. Isso se eu não for cremado como pedi.

Enquanto nenhuma das duas coisas acontece, continuo tendo a sensação que flutuo dentro do necrotério. Projetando minha consciência não sei de onde e para onde. Só sei dizer que até agora não vi nenhuma dimensão diferente a que tenho visto normalmente.

O que sei é que estou passando por uma experiência de quase morte apenas porque meus pensamentos continuam fluindo. Seja o que for, não deixei de pensar e se penso logo existo, continuo ocupando esse espaço. Acho que os hindus chamam isso de Keshara e os Tibetanos de Delog. Infelizmente eu não fumei ou me droguei em vida pra ter mais nomes pra isso.

Já sei! Se me lembrar de minhas velhas aulas de Antropologia, acho que me tornei um mito! Ou seja, continuo existindo enquanto faço a narrativa de minha própria experiência. Enquanto crio uma explicação simbólica para o inexplicável eu mantenho minha própria consciência que continua se recriando.

Sou como um deus que só existe se tem seguidores. No meu caso, basta que uma única pessoa, eu mesmo, acredite em mim que continuarei subsistindo. Só assim consigo explicar minha experiência sobrenatural e minha realidade consciente.

Dessa maneira, o que estou fazendo refletindo sobre minha morte é criar um rito que embasa minha crença. Esse rito de refletir o que acredito e entendo sobre a morte, me mantém. Ou seja, é minha cultura e sua reflexão sobre a pós-vida que me mantém nesse estado.

Acho que Fernando Pessoa disse algo sobre isso. Ele comentou que o mito é o nada que é tudo. Para mim, nesse momento eu sou nada, puro pensamento que se traduz em tudo o que me restou. São estou mudo em meus pensamentos, na realidade, parece que se abriu uma torrente de reflexões em mim.

Interessante pensar nisso. Grande parte de minha vida eu construí pensando na esperança do amanhã, mas esse amanhã sempre me aproximou da morte, do último e derradeiro momento que estou tendo de refletir agora.

Camus disse que desde que o momento absurdo é reconhecido, ele se torna uma paixão, a mais angustiante de todas. Eu reconheço minha morte agora e estou apaixonado pela capacidade e possibilidade de reflexão que ela me proporciona.

Essa imensa calma, esse pensamento sem fim continua me impelindo a pensar nos mitos que me formaram, e em como, sempre acreditei nas forças sobrenaturais que governavam o mundo.

Sendo assim, acho que terei de continuar minha reflexão enquanto ela durar, aproveitar essa sensação como um xamã aproveitaria seu transe ritual. Quem sabe entender essa experiência possa me ajudar de forma que nunca pude imaginar antes.

Sinto um êxtase por trás da calma. Uma sensação que se abrir minhas “asas” através de meu pensamento eu poderei voar pela sala, pelo mundo que vivi e pelos mundos que sempre imaginei.

Acho que se continuar pensando, poderei encontrar um guia, um verdadeiro guia animal que me mostrará o kami que me tornei. Um ser com poderes incomuns, um pensamento personificado.

Será que esse “animal de poder” falará comigo? Será que poderei reconhecê-lo? Consigo imaginar um mundo, uma floresta, um céu. Será que como pensamento desencarnado isso é minha imaginação ou cada vez mais, esses pensamentos se tornam minha realidade?

Eu vejo agora um espaço profundo, pontilhado por estrelas. Dessa imagem consigo observar uma grande tartaruga que nada por todo esse espaço. Sinto que ela representa a terra, as personificações da eterna mãe e a vida.

Agora sinto que meu antigo eu, o meu corpo, nasceu das entranhas da terra e deve retornar de onde veio, honrando e respeitando tudo o que me foi dado, todo o ciclo que vivi.

O que resta de mim, meu pensamento, minha prece, minha crença pessoal continuará existindo.

Quem sabe essa reflexão crie um casco em mim que me permita voar pelo espaço, me reconectando com as energias da vida. Devo relaxar e focalizar minha atenção nisso.

Devo me lembrar da antiga fábula da lebre e da tartaruga. Ser rápido e forte, vivo e fugaz, não faz nenhuma diferença.

Assim entenderei a abundância que tive em vida e quem sabe, seguindo o fluxo da correnteza, eu possa pedir ajuda à mãe terra e entender tudo o que sou e serei a partir de agora.

Pois eu tive um córtex que era apenas uma camada, revestimento e superfície de mim mesmo. Tive um cérebro que com seus milhões de células me permitiam manipular um simples controle remoto de televisão. Tive todo o poder da comunicação que me permitiram trocar idéias, gesticular, falar, ouvir, ver, sentir e imaginar. E tive toda uma existência junto com diversos outros seres humanos, que se amontoavam em cidades de concreto ou mundos virtuais.

E o que tenho agora?


Agora tenho todo o tempo do mundo para refletir e pensar em tudo o meu corpo viveu, tudo o que acredito, tudo o que tive e tudo o que tenho.

Sendo assim, deixo o cadáver para trás e mergulho finalmente nas profundezas de meu pensamento. Sinto-me livre e sei que agora não tenho limites para onde devo ir.

Pois agora sou o mito, o nada que se torna o tudo, que apesar de não ser visto, brilha como o sol nos céus do mundo, brilhante e mudo, radiante e eterno…

Creative Commons License
Reflexões de um pensamento. by JBAlves is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.

, , ,

A visita de um Teratoma.

image

Uma noite ela surgiu. Vinda de um buraco escondido na realidade de minha sala. De um reboco mal formado da parede por onde escapavam minhas felicidades. Era uma noite fria e chorosa. Daquelas que o vento sempre bate com força nossas janelas, fazendo-nos soluçar de susto.

Por um sibilo ela se apresentou, sábia e solitária, soturna e sanguinária essa gentil senhora disse palavras piedosas a meus ouvidos. Era ao mesmo tempo, lânguidas promessas e parcas oportunidades, belos sonhos e horríveis pesadelos.

Ela se apresentou como uma sobrevivente do século passado. Observadora e curiosa, esquiva e latente ela me revelou que seu segredo de longevidade era roubar da essência masculina dos que não nasceram. Gota a gota esse estranho elixir lhe preservava a vida, afastando-a da sanidade.

Sua solidão era palpável. Suas belas irmãs haviam à séculos se transformado em pó, e a única coisa que a permitia viver sem elas era o palpitar de seu coração cheio do pó de cada uma.

Antigamente ela era dependente das conquistas das irmãs, mas, com o passar das décadas elas envelheceram enquanto o teratoma manteve-se inalterado, talvez seja o que a medicina moderna chama de câncer, células imortais que tardam a deixar o corpo do qual vieram.

Ela, ao contrário de qualquer tumor benigno, se alojara entre suas velhas irmãs enquanto consumia os corpos deixados no crematório, cada pequena partícula de pó se unia a ela lhe permitindo agora caminhar sem a necessidade de sua tão antiga trigeminalidade.

Agora, sua vida consistia em percorrer o mundo através das fendas abertas pela sociedade, pelas feridas das paredes, pelos buracos no vidro e pelas passagens do aço. Levando a seus “clientes”, a chance de elevarem seus nomes à monumentais caminhos.

Era isso que ela me prometia. Se lhe permitisse sugar de minhas sementes, ela me entregaria o periódico que sempre procurei escrever, me permitindo percorrer os caminhos onde poucos homens passaram, o caminho de ouro do reconhecimento mundial e do sucesso.

Um frenesi mundano abalava fundo meus ossos. Pois meus sonhos não são belos, nem honestos, como todo homem mundano sempre sonhei com conquistas e poder, com meus desejos sendo realizados enquanto vivo.

Mas, permitir que minha semente, minha esquiva parceria, errática e maculada, fosse retirada de meu ser para embalá-la mais algumas décadas era mais que meu pobre estômago poderia resistir.

Vomitando meus medos no piso de minha sala eu tentava me controlar. Diferente de meu antecessor, ela não enviara uma misteriosa carta negra se apresentando. Sua presença fétida era nítida perante meus olhos. Acho que os anos lhe retiveram a vida mas não a paciência.

Ela precisava de minha ajuda e me prometia entregar o trabalho que nenhum lápis, pena ou caneta poderia escrever, me permitindo ladear os inesquecíveis exemplos literários de meu país e do mundo.

O buraco em que se estreitava quase não cabia seu corpanzil disforme, sua pele rala e esburacada escondia bem mais que deformidades humanas, ela na realidade, revelava nosso interior, a verdadeira face do homem sem seu verniz de pretensa humanidade.

Ela insistiu, me pedindo para beber de seu elixir vital. Me olhando com órbitas fundas e vazias ele me sibilou todos os sucessos que alcançaria minha medíocre realidade.

Continuando nessa ladainha interminável minha consciência foi se apagando, nesse momento concordei com o desígnio do Teratoma e abracei a criação literária desta como um náufrago abraça o último pedaço do navio.

Então afundei…

Minha vida, ou parte dela, me foi sugada enquanto sonhos insanos se agitavam e grunhiam. Senti-me desfalecer e quando recobrei o juízo a solitária senhora havia partido.

Em cima de minha mesa ela havia deixado uma pequena carta junto com uma estranha rosa negra. Segundo sua carta ela mesmo havia cultivado nos recônditos túneis do subsolo aquela rara mutação.

Seu perfume me lembrava uma época passada, habitada por cavalheiros e damas, meretrizes e assassinos. Uma época que meu coração gostaria de habitar e meus sonhos desejam conhecer. A época onde nasceu as gêmeas siamesas que um dia iriam se tornar belas damas rameiras e um aborto cancerígeno.

Agora que ela se foi posso me deleitar por seus estranhos trabalhos, realmente seu pagamento por minha semente valeriam a pena se não tivesse tanta consciência do que fiz.

Não posso me permitir existir numa realidade que não é minha conquista. Me aproveitar da existência daquilo é me sujeitar a seu próprio nível. E venhamos a ser sinceros. Ladrão de vida é algo que poderia suportar, mas nunca me permitiria ser ladrão de idéias, algo tão incomensurável para um verdadeiro escritor quanto sua própria derrota, pois suas palavras são mutáveis como o tempo.

Sendo assim, acredito que não precisarei da ajuda de um teratoma para alcançar meus objetivos. Pois já possuo meu próprio câncer pessoal, a imaginação insensata em minha consciência.

Essa sim me incomoda noites a fio, sempre levando partes de minha vida, sempre me consumindo e me guiando, só permitindo a realidade do tamanho do universo, nada tão pequeno quanto os sonhos dos homens.

Texto inspirado na obra: As Piedosas de Frederico Andahazi.

Creative Commons License
A visita de um Teratoma. by JBAlves is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.

, ,

Abre os olhos. Você também está morrendo junto com o planeta!

O Planeta já não é o mesmo. E já não podemos esperar mais. O tempo é curto. O Futuro do Planeta está em suas mãos. Ajude-se. Porque o planeta Terra é você!

Pense profundamente sobre isso. Não ignore mais o que estamos fazendo aqui. Este é nosso teste, nossa prova de que somos seres inteligentes e conscientes. Salvando o planeta, salvaremos a nós mesmos. Abra os olhos. Tudo o que fazemos aqui está deixando claro a nossa capacidade como espécie, como seres religiosos, como seres vivos.

Clique para assistir o vídeo.