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O nascimento de um Serial Killer.

 
“Primeiro, aquelas vozes ficavam conversando comigo sobre coisas comuns. Depois, eles  começaram a fazer imagens mentais em meu rosto. Eu não conseguia me expressar, eu fazia movimentos esquisitos com a boca. Imagens mentais bloqueavam minha ação mental. E havia, ainda cheiros estranhos, na hora das ações muito fortes…” 
O Assassino de Mandaqui – Serial Killer Brasileiro.
Em três décadas o número de Assassinos Seriais ou Serial Killers cresceu 940% nos EUA e é estimado para os próximos anos que mais de vinte pessoas por dia sejam assassinadas por um deles em todo o mundo.
Os assassinatos em série são como uma epidemia, atualmente existem centenas de Serial Killers em atividade atualmente nos EUA.
E os números não param de crescer no mundo inteiro, por todos os países. As grandes nações podem não divulgar mas todas se preocupam com o crescimento desses números aterrorizantes que crescem a nossa volta cada vez mais, ano após ano.
Importante comentar que diferente de outros assassinos passionais, os Serial Killers selecionam a vítima, escolhem o local do ataque, consideram todos os detalhes e precauções, fantasiam sobre o assassinato e depois procuram a vítima para finalizar o ato planejado. 
 
Parece que existem forças desconhecidas que operam nesses indivíduos. Algo assustador e deturpado que entra nas células e transformam, em um nível subconsciente, um homem em um monstro.
Apesar de já ter lido alguns de livros sobre o tema, eu nunca pensei muito no seria essa centelha deturpada.

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Apenas uma questão de perspectiva…

Radiante, o grande Sol pulsava iluminando e aquecendo a imensa escuridão. Enquanto isso, o fazendeiro limpava o suor do rosto e olhava ao longe para os diversos animais que pastavam na campina.

Era apenas mais um dia, como todos os outros dias.

Para um, a preocupação era se as reses estariam prontas para o abate nas próximas semanas. Para outro, explosões atômicas que consumiriam diversos planetas, pipocavam aqui e ali e de maneira ocasional enquanto seus raios percorriam o espaço e tocavam asteróides, cometas, luas e mundos distantes.

Ou seja, era apenas mais um dia, daqueles cheios de perspectivas.

Ele, não tinha olhos, mas via o infinito através da radiação. Não tinha braços e pernas, mas sentia o universo de maneiras impensáveis, com uma riqueza de detalhes que só as estrelas de sua grandeza conseguiriam.

O outro tentava ignorar o suor que escorria pelo rosto queimado mas, às vezes, suas mãos calejadas se lembravam de limpar o excesso de água e pó que se acumulava em suas sobrancelhas enquanto, com dois passos rápidos, percorria o brete e saltava uma cerca indo em direção aos animais. Leia mais

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Bebendo com o inimigo.

“Everybody dies, sooner or later. Don’t worry about your death. Worry about your life. Take charge of your life for as long as it lasts.” ―Petyr Baelish to Robin Arryn

 
                Joseran Mariac estava cansado. A fuga fora longa e fatigante, ele já não era tão jovem mas não tinha esquecido todos os truques. As janelas de seu quarto davam para a viela e para telhados, com uma vista do Água Negra por cima deles. Observou seu guia partir e caminhar a passos largos pelas ruas movimentadas até se perder na multidão, e depois decidiu descansar. O colchão de palha era adequado, então não teve dificuldade em adormecer. 

                Acordou com um barulho vindo da porta.

Sentou-se de repente. Da janela viam-se os telhados de Porto Real, vermelhos à luz do sol poente. Dormira durante todo o dia,  mais tempo do que planejara. Um punho voltou a martelar na porta e uma voz gritou: – Abra, em nome do rei.

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No velho cinema…

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No velho cinema a muda música ecoava. Seus toques, secos, eram embalados pelos passos dos garçons, o tilintar dos corpos e o surdo som das risadas.

Olhares desmedidos, pairavam sem faces entre as mesas. E no lugar dos personagens, arquétipos irreais recriavam papéis impostos pela realidade.

O músico puxava baladas de conquista e luxúria e mesmo estampando um largo sorriso, ele não deixava de pensar na filha doente.

A garçonete de cabelos descontrolados, saltitava entre as mesas como uma mosca varejeira. E apesar de cansada pelas doze horas ininterruptas, estava exultante por causa das parcas gorjetas.

E era assim, que o filme descarrilava…

Pois “homens de bem” tramavam a morte de seus companheiros. E mesmo as velhas e respeitáveis senhoras saiam às claras com seus afilhados.

Cenas de suspense, corrupção, romance ou drama.

Enfim, cenas do grande filme de nossas vidas. Recortado e adulterado por mais um escritor desconhecido, bêbado e desgostoso, preso naquele velho cinema…

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No velho cinema by JBAlves is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.

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Para que não se esqueçam da Loucura.


Mais uma vez a terra começa a se tornar adequada para a nossa sobrevivência e em todo o planeta, os 250 milhões de habitantes podem comemoram a diminuição dos fenômenos climáticos extraordinários que assolaram a nossa civilização
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No entanto, não podemos esquecer do que aconteceu. É nossa responsabilidade relembrar os sinais que simplesmente ignoramos no início de 2001. Pois foi nossa ignorância, nossa arrogância e todo o jogo de interesses daqueles que detinham o poder que acabaram com o ecossistema ao longo dos séculos.

Infelizmente gerações sofreram e nunca tiveram a oportunidade de crescer num mundo belo e saudável. E foi por causa da nossa incapacidade de mudar que o clima em nosso planeta mudou mais rapidamente do que o esperado, matando diversas espécies incluindo bilhões de vidas humanas.

 


Por favor se lembrem dos esforços feitos no passado para diminuir os fatores que vieram a acontecer. E como muitos consideram, lembrem-se de um dos exemplos mais tristes relacionado que aconteceram logo após a assinatura do Protocolo de Kyoto em 1998.

Esse protocolo era constituído num acordo internacional formado por compromissos mais rígidos para a redução na emissão dos gases, considerados, de acordo com a maioria das investigações científicas da época, como causa do Aquecimento Global. 

Basicamente o protocolo estimulava os países signatários a cooperarem entre si através de algumas ações referentes à reforma dos setores de energia e transportes. Ele previa a promoção no uso de fontes energéticas renováveis, da limitação das emissões de Metano e no gerenciamento de resíduos e dos sistemas energéticos.


E é claro, que a proteção das florestas e de outros sumidouros de Carbono eram discutidos ha muito tempo e também eram considerados essenciais para o tratado.

O objetivo do protocolo era de reduzir a temperatura Global entre 1,4ºC e 5,8ºC até o ano de 2100. No entanto, como muitas comunidades científicas já discutiam na época, a meta de redução seria insuficiente para mitigar o aquecimento global. 
Mesmo assim, muitos países não aderiram ao protocolo, e algumas das maiores riquezas simplesmente não ratificaram o acordo com a alegação de que os compromissos interfeririam negativamente na sua economia.

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Gotas de chuva não lavam a dor de um velório.

Uma chuva leve caia de maneira impertinente durante à tarde. Como lágrimas, as gotas de chuva tentavam lavar os pés enlameados que avançavam pela rua em direção do velório. Sua mente ainda não conseguia acreditar! Aquele maldito acidente primeiro ceifou a vida de seu melhor amigo. E agora, poucos dias depois, ele recebeu a assustadora notícia que a sua ex-namorada e paixão dos idos de infância também faleceu por causa da gravidade dos ferimentos.
 
 
Ele não conseguia pensar direito. Cambaleava pela rua enquanto uma dor insistente teimava em queimar o seu coração. Sua cabeça, pulsava no mesmo ritmo que a chuva. E cada gota que batia em seu jaqueta soava como uma agulha, torta e enferrujada que explodia a sua volta e levava para o esgoto o que restava de seu autocontrole.

Sentia-se amargurado e esquecido. E seus pés encharcados quase se afogavam dentro dos sapatos velhos que faziam par com a sua roupa batida que já não podia ser chamada de terno por causa da quantidade de remendos que tinha.

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Caça ou caçador?

Sua respiração estava pesada apesar de seu esconderijo ser perfeito.

Foi nesse momento que o leão entrou na caverna. Ele perscrutou o ar atrás de algum cheiro. Seus pêlos amarelados refletiam um tom estranho junto com a grande juba laranja, seus músculos poderosos estavam tensos, era incomum um leão adulto sair em caçada, ainda mais se aventurar em lugares fechados como a caverna.

O jovem sabia disso e se assustava com a possibilidade dele ser um espírito em forma de animal. Então avançou. Passo a passo começou a se afastar de onde estava escondido. Uma confiança que não acreditava possuir o havia dominado. Era o momento dele provar para sua tribo que já era um homem. A faca ritual que pendia em sua coxa esquerda foi a arma escolhida. No momento em que o animal se distraísse ele o atacaria pelas costas. Uma vez morto sua pele iria adornar o chão de sua cabana, e sua juba seria um adorno de grande honra na tribo.

Continuou avançando. O barulho do animal a sua frente o impelia a continuar. Seu coração parecia querer sair por sua garganta. Um suor frio descia por sua face. Ele estava nervoso, só tinha 20 anos e não seria um homem enquanto não tivesse matado seu primeiro leão. E acabar com um leão adulto sozinho provaria que ele era merecedor do título de guerreiro.

O jovem guerreiro diminuiu seus passos. O som que o grande leão fazia haviam cessado. Até mesmo o som de seu rabo que esvoaçava pelo ar havia silenciado. Até mesmo seu cheiro parecia querer escapar de suas narinas. Um tremor leve começou a surgir. Suas pernas começaram a amolecer, e o medo começou a dominá-lo.

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Reflexões de um pensamento.

soul

“O mito é o nada que é tudo
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos braços.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre
De nada, morre.
 
(Fernando Pessoa )

Um corpo pode ser reconhecido como um conjunto de várias partes que compõem um animal. Após a sua morte esse corpo é considerado um cadáver. O corpo humano, como o de outros mamíferos, é geralmente dividido em cabeça, tronco e membros.

Esse corpo, o meu corpo em especial, está deitado em uma fria mesa de metal no mais profundo e indistinto morgue da cidade. Morgue, ou necrotério, é o local onde são guardados os cadáveres e se realizam exames periciais visando determinar a “causa mortis” ou causa da morte.

Esse necrotério, pode ser encontrado no Continente das Américas, bem no sul do Brasil, em uma pequena cidade no norte do Paraná, na Rua Edgar Alan Poe número 1849. É um estabelecimento distinto e sem nenhum detalhe aparente, atendido e frequentado constantemente por médicos legistas, especialistas forenses, góticos ou simplesmente pessoas estranhas ao próprio estado da morte.

A Morte, óbito, falecimento ou simplesmente passamento são os termos que conheço para o término da vida de um organismo. A situação que ocorre para a transformação de um corpo em um cadáver.

Pode parecer estranho, e até mesmo mórbido essa minha análise. Isso se eu estivesse olhando um cadáver em uma mesa de ferro atrás de um balcão do necrotério. Mas na realidade, ou dentro de meus pensamentos, eu estou na realidade olhando para o meu corpo, o meu cadáver, do alto da sala desse mesmo necrotério.

Acredito que não é a loucura que me atinge, ou mesmo um sonho muito realista. Mas não sei também se estou morto, observando meu próprio cadáver a poucos metros de mim. Digo isso porque em nenhum momento fui avisado pelo anjo da morte ou mesmo tive contato com o famoso túnel de luz que me avisa e guia meu passamento.

Ainda assim, a morte é o fenômeno natural que mais motiva as discussões na religião, ciência e filosofia, é ela que envolve o homem desde o princípio dos tempos moldando seu misticismo, sua noção do que é magia, seus mistérios e seus insondáveis segredos.

Não sei mesmo o porquê desses pensamentos e análises. Nem o porquê dessa incomum necessidade de entender que me atinge neste momento. Se tudo é vaidade, ou mesmo ilusão eu não sei. Devo estar apenas me apegando a minha vida mundana, ou se der atenção ao meu cadáver abaixo à minha antiga vida mundana.

Não sei se devo acreditar em vida após a morte ou mesmo em reencarnação. Sinto que se começar a refletir sobre isso, itens diferentes poderão surgir e me incomodar, talvez o medo do inferno ou mesmo o medo de reencarnar em um corpo diferente do que tenho, ou tinha.

Consigo imaginar dezenas de antropólogos debatendo o tema da morte em um salão vazio, imaginando os ritos fúnebres de todos os homens que morreram e se tornaram cadáveres antes deles.

Simbologias e crenças misturadas com imaginação e medo. Sensações que nunca podem ser retiradas da balança, mas sempre são ignoradas por todos os pontos de vista da ciência.

Estranhos pensamentos que esse meu estado de “consciência” está tendo. Não sei bem se é o meu desligamento da matéria ou se é apenas minha maneira de expressar meu estupor e surpresa por ser voyeur de meu próprio cadáver.

Em que devo acreditar? Em quem devo me apegar? Sobre o que devo refletir? Pra quem devo orar, pedir, clamar ou mesmo me humilhar? São estas as perguntas que penso enquanto flutuo lentamente nessa sala vazia de vida, cheia de cadáveres.

Se fosse pensar em termos de anatomia, fisiologia ou mesmo tecnologia, eu teria os nomes, termos, crenças e teorias. Mas o que me resta agora nesse estado incorpóreo são a análise lógica e a fé cega.

Mas mesmo isso não passa de mero reducionismo, pensar que minha morte pode ser explicada pela biologia ou entendida pela fé não passa de uma mera e simples ilusão. Principalmente porque, de onde me encontro, a mais ou menos dois metros e meio de meu cadáver, eu não tenho nenhum motivo em descartar ou escolher alguma dessas opções.

Desde o tempo dos gregos se tenta explicar essa dicotomia, essa dissociação. Platão dividiu o homem em corpo e alma, mas tenho certeza que ele mudaria de opinião e seu pensamento platônico do mundo seria alterado se passasse pelo que estou passando agora.

Se pensar em Lacan e no seu conceito, de que o corpo é o espelho da mente, eu vou me reduzir a um pensamento incômodo e indiscreto que fica observando meu próprio cadáver sem cor e sem vida.

Argh! Mesmo o que conheço de Nietzsche não me traz respostas! Pois tudo parece subjetivo demais, ilusório demais, estranho demais para minha mente, pensamento, alma ou consciência entender.

Essa experiência de desencarnar não é incômoda, não sinto palpitação, mãos tremendo, joelhos trêmulos ou respiração entrecortada. Na realidade, não sinto nada, sou apenas uma voz na cabeça, sem cabeça! Hehe.

Acho que minhas células podem estar desligadas, mas meus chacras não. É como se meus centros de energia continuassem bombeando energia pra meus pensamentos e meu eu psicológico, mantendo assim um eu moral.

Será que isso vai continuar indefinidamente, ou só é preciso cremar meu corpo para que isso também se apague? Quanto tempo me resta agora que parte de mim virou um cadáver? Será que ficarei assim, flutuando nessa sala mal iluminada por todo o tempo?

Muitas questões sem resposta. Se eu fosse mais materialista seria apegado demais ao corpo físico e acreditaria que vou sumir, ou poderia viver a ilusão de que não estou morto e que logo vou me recuperar, pois estou apenas vivendo uma experiência de quase morte. Besteira! Mesmo eu sei que aquele corte de fora a fora em meu cadáver nunca vai poder ser fechado de novo.

Eu observei o legista me abrindo. Li minhas entranhas na tentativa de conhecer meu futuro. Na idade média, essa prática era feita com os pombos mas eu fiz isso com meu próprio corpo visando entender minha condição peculiar.

Interessante que a tranqüilidade que sinto agora é diferente de todas as que já tentei sentir. Não existe nenhuma pressão biológica competindo com minhas pressões psicológicas. Por enquanto sou apenas pensamento. Um pensamento com um leve humor negro, mas um pensamento.

Acho que o espiritismo e outras crenças esotéricas chamariam meu estado de perispírito, corpo fluídico ou mesmo de estágio desencarnado. Com tranqüilidade eu poderia gritar para todos que não me sinto assim. Na realidade não sei como devo me sentir.

O que estou passando parece, beeem de longe, com aquela sensação que temos quando bebemos demais e o corpo entorpecido começa a se desligar da mente embriagada. Um não sente o outro, mas ambos sabem que estão próximos. Talvez seja a ligação remanescente dessa energia que faz de mim o que sou agora, o pouco que resta de vida em meu cadáver. Lembro que meus cabelos e unhas ainda vivem e continuarão crescendo no caixão. Isso se eu não for cremado como pedi.

Enquanto nenhuma das duas coisas acontece, continuo tendo a sensação que flutuo dentro do necrotério. Projetando minha consciência não sei de onde e para onde. Só sei dizer que até agora não vi nenhuma dimensão diferente a que tenho visto normalmente.

O que sei é que estou passando por uma experiência de quase morte apenas porque meus pensamentos continuam fluindo. Seja o que for, não deixei de pensar e se penso logo existo, continuo ocupando esse espaço. Acho que os hindus chamam isso de Keshara e os Tibetanos de Delog. Infelizmente eu não fumei ou me droguei em vida pra ter mais nomes pra isso.

Já sei! Se me lembrar de minhas velhas aulas de Antropologia, acho que me tornei um mito! Ou seja, continuo existindo enquanto faço a narrativa de minha própria experiência. Enquanto crio uma explicação simbólica para o inexplicável eu mantenho minha própria consciência que continua se recriando.

Sou como um deus que só existe se tem seguidores. No meu caso, basta que uma única pessoa, eu mesmo, acredite em mim que continuarei subsistindo. Só assim consigo explicar minha experiência sobrenatural e minha realidade consciente.

Dessa maneira, o que estou fazendo refletindo sobre minha morte é criar um rito que embasa minha crença. Esse rito de refletir o que acredito e entendo sobre a morte, me mantém. Ou seja, é minha cultura e sua reflexão sobre a pós-vida que me mantém nesse estado.

Acho que Fernando Pessoa disse algo sobre isso. Ele comentou que o mito é o nada que é tudo. Para mim, nesse momento eu sou nada, puro pensamento que se traduz em tudo o que me restou. São estou mudo em meus pensamentos, na realidade, parece que se abriu uma torrente de reflexões em mim.

Interessante pensar nisso. Grande parte de minha vida eu construí pensando na esperança do amanhã, mas esse amanhã sempre me aproximou da morte, do último e derradeiro momento que estou tendo de refletir agora.

Camus disse que desde que o momento absurdo é reconhecido, ele se torna uma paixão, a mais angustiante de todas. Eu reconheço minha morte agora e estou apaixonado pela capacidade e possibilidade de reflexão que ela me proporciona.

Essa imensa calma, esse pensamento sem fim continua me impelindo a pensar nos mitos que me formaram, e em como, sempre acreditei nas forças sobrenaturais que governavam o mundo.

Sendo assim, acho que terei de continuar minha reflexão enquanto ela durar, aproveitar essa sensação como um xamã aproveitaria seu transe ritual. Quem sabe entender essa experiência possa me ajudar de forma que nunca pude imaginar antes.

Sinto um êxtase por trás da calma. Uma sensação que se abrir minhas “asas” através de meu pensamento eu poderei voar pela sala, pelo mundo que vivi e pelos mundos que sempre imaginei.

Acho que se continuar pensando, poderei encontrar um guia, um verdadeiro guia animal que me mostrará o kami que me tornei. Um ser com poderes incomuns, um pensamento personificado.

Será que esse “animal de poder” falará comigo? Será que poderei reconhecê-lo? Consigo imaginar um mundo, uma floresta, um céu. Será que como pensamento desencarnado isso é minha imaginação ou cada vez mais, esses pensamentos se tornam minha realidade?

Eu vejo agora um espaço profundo, pontilhado por estrelas. Dessa imagem consigo observar uma grande tartaruga que nada por todo esse espaço. Sinto que ela representa a terra, as personificações da eterna mãe e a vida.

Agora sinto que meu antigo eu, o meu corpo, nasceu das entranhas da terra e deve retornar de onde veio, honrando e respeitando tudo o que me foi dado, todo o ciclo que vivi.

O que resta de mim, meu pensamento, minha prece, minha crença pessoal continuará existindo.

Quem sabe essa reflexão crie um casco em mim que me permita voar pelo espaço, me reconectando com as energias da vida. Devo relaxar e focalizar minha atenção nisso.

Devo me lembrar da antiga fábula da lebre e da tartaruga. Ser rápido e forte, vivo e fugaz, não faz nenhuma diferença.

Assim entenderei a abundância que tive em vida e quem sabe, seguindo o fluxo da correnteza, eu possa pedir ajuda à mãe terra e entender tudo o que sou e serei a partir de agora.

Pois eu tive um córtex que era apenas uma camada, revestimento e superfície de mim mesmo. Tive um cérebro que com seus milhões de células me permitiam manipular um simples controle remoto de televisão. Tive todo o poder da comunicação que me permitiram trocar idéias, gesticular, falar, ouvir, ver, sentir e imaginar. E tive toda uma existência junto com diversos outros seres humanos, que se amontoavam em cidades de concreto ou mundos virtuais.

E o que tenho agora?


Agora tenho todo o tempo do mundo para refletir e pensar em tudo o meu corpo viveu, tudo o que acredito, tudo o que tive e tudo o que tenho.

Sendo assim, deixo o cadáver para trás e mergulho finalmente nas profundezas de meu pensamento. Sinto-me livre e sei que agora não tenho limites para onde devo ir.

Pois agora sou o mito, o nada que se torna o tudo, que apesar de não ser visto, brilha como o sol nos céus do mundo, brilhante e mudo, radiante e eterno…

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O INIMIGO DE MEU INIMIGO…

Holo36 dançava alegremente pelas ruas de Tarr usando a imagem de uma atriz morta a mais de 200 anos que ele havia encontrado no antigo banco de dados da cidade. O soldado humano ao seu lado, normalmente silencioso e focado também estava um pouco distraído, tanto por causa do final das chuvas e início de um dos melhores períodos climáticos do planeta quanto pela diminuição dos ataques contra sua cidade. Holo36 era um holograma, construído com o que existia de mais avançado em inteligência artificial e holografia baseada na união da tecnologia humana e alienígena, uma inteligência artificial experimental que seria usado para proteger os interesses e costumes dos seres humanos.

E, neste momento, muitos humanos precisavam de proteção. Mesmo com a destruição da liderança central dos invasores ainda aconteciam muitas escaramuças por todo aquele setor do espaço. As tropas inimigas ainda eram abundantes, e sem um controle central para controlá-los eles vagavam por todos os lugares e até pior, o tumulto emocional dentro da cidade entre toda a sociedade humana juntamente com as discussões entre os militares, incluindo os antigos membros dos colonizadores terráqueos que trocaram de lado, ameaçava destruir tudo aquilo que os refugiados tinham construído, tudo aquilo que os humanos haviam eregido em Tarr, a maior e pelo que sabiam a última cidade remanescente do planeta.

Todos esses problemas, entretanto, não eram para aquele dia, não no sol da manhã, com aquela leve e agradável brisa vinda do norte. Até mesmo o soldado humano que havia sido designado a testar Holo36 estava de bom humor naquele dia. O nome do soldado era Jwolf e tinha prometido ao holograma que se tudo continuasse calmo ele até se arriscaria a ir ao comando central para ver se algumas das disputas poderiam ser resolvidas. Leia mais

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A visita de um Teratoma.

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Uma noite ela surgiu. Vinda de um buraco escondido na realidade de minha sala. De um reboco mal formado da parede por onde escapavam minhas felicidades. Era uma noite fria e chorosa. Daquelas que o vento sempre bate com força nossas janelas, fazendo-nos soluçar de susto.

Por um sibilo ela se apresentou, sábia e solitária, soturna e sanguinária essa gentil senhora disse palavras piedosas a meus ouvidos. Era ao mesmo tempo, lânguidas promessas e parcas oportunidades, belos sonhos e horríveis pesadelos.

Ela se apresentou como uma sobrevivente do século passado. Observadora e curiosa, esquiva e latente ela me revelou que seu segredo de longevidade era roubar da essência masculina dos que não nasceram. Gota a gota esse estranho elixir lhe preservava a vida, afastando-a da sanidade.

Sua solidão era palpável. Suas belas irmãs haviam à séculos se transformado em pó, e a única coisa que a permitia viver sem elas era o palpitar de seu coração cheio do pó de cada uma.

Antigamente ela era dependente das conquistas das irmãs, mas, com o passar das décadas elas envelheceram enquanto o teratoma manteve-se inalterado, talvez seja o que a medicina moderna chama de câncer, células imortais que tardam a deixar o corpo do qual vieram.

Ela, ao contrário de qualquer tumor benigno, se alojara entre suas velhas irmãs enquanto consumia os corpos deixados no crematório, cada pequena partícula de pó se unia a ela lhe permitindo agora caminhar sem a necessidade de sua tão antiga trigeminalidade.

Agora, sua vida consistia em percorrer o mundo através das fendas abertas pela sociedade, pelas feridas das paredes, pelos buracos no vidro e pelas passagens do aço. Levando a seus “clientes”, a chance de elevarem seus nomes à monumentais caminhos.

Era isso que ela me prometia. Se lhe permitisse sugar de minhas sementes, ela me entregaria o periódico que sempre procurei escrever, me permitindo percorrer os caminhos onde poucos homens passaram, o caminho de ouro do reconhecimento mundial e do sucesso.

Um frenesi mundano abalava fundo meus ossos. Pois meus sonhos não são belos, nem honestos, como todo homem mundano sempre sonhei com conquistas e poder, com meus desejos sendo realizados enquanto vivo.

Mas, permitir que minha semente, minha esquiva parceria, errática e maculada, fosse retirada de meu ser para embalá-la mais algumas décadas era mais que meu pobre estômago poderia resistir.

Vomitando meus medos no piso de minha sala eu tentava me controlar. Diferente de meu antecessor, ela não enviara uma misteriosa carta negra se apresentando. Sua presença fétida era nítida perante meus olhos. Acho que os anos lhe retiveram a vida mas não a paciência.

Ela precisava de minha ajuda e me prometia entregar o trabalho que nenhum lápis, pena ou caneta poderia escrever, me permitindo ladear os inesquecíveis exemplos literários de meu país e do mundo.

O buraco em que se estreitava quase não cabia seu corpanzil disforme, sua pele rala e esburacada escondia bem mais que deformidades humanas, ela na realidade, revelava nosso interior, a verdadeira face do homem sem seu verniz de pretensa humanidade.

Ela insistiu, me pedindo para beber de seu elixir vital. Me olhando com órbitas fundas e vazias ele me sibilou todos os sucessos que alcançaria minha medíocre realidade.

Continuando nessa ladainha interminável minha consciência foi se apagando, nesse momento concordei com o desígnio do Teratoma e abracei a criação literária desta como um náufrago abraça o último pedaço do navio.

Então afundei…

Minha vida, ou parte dela, me foi sugada enquanto sonhos insanos se agitavam e grunhiam. Senti-me desfalecer e quando recobrei o juízo a solitária senhora havia partido.

Em cima de minha mesa ela havia deixado uma pequena carta junto com uma estranha rosa negra. Segundo sua carta ela mesmo havia cultivado nos recônditos túneis do subsolo aquela rara mutação.

Seu perfume me lembrava uma época passada, habitada por cavalheiros e damas, meretrizes e assassinos. Uma época que meu coração gostaria de habitar e meus sonhos desejam conhecer. A época onde nasceu as gêmeas siamesas que um dia iriam se tornar belas damas rameiras e um aborto cancerígeno.

Agora que ela se foi posso me deleitar por seus estranhos trabalhos, realmente seu pagamento por minha semente valeriam a pena se não tivesse tanta consciência do que fiz.

Não posso me permitir existir numa realidade que não é minha conquista. Me aproveitar da existência daquilo é me sujeitar a seu próprio nível. E venhamos a ser sinceros. Ladrão de vida é algo que poderia suportar, mas nunca me permitiria ser ladrão de idéias, algo tão incomensurável para um verdadeiro escritor quanto sua própria derrota, pois suas palavras são mutáveis como o tempo.

Sendo assim, acredito que não precisarei da ajuda de um teratoma para alcançar meus objetivos. Pois já possuo meu próprio câncer pessoal, a imaginação insensata em minha consciência.

Essa sim me incomoda noites a fio, sempre levando partes de minha vida, sempre me consumindo e me guiando, só permitindo a realidade do tamanho do universo, nada tão pequeno quanto os sonhos dos homens.

Texto inspirado na obra: As Piedosas de Frederico Andahazi.

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