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Submergindo minha reflexão.

Era uma tarde de quarta-feira quando desci os cento e cinqüenta degraus em direção à fascinante lagoa misteriosa. A alcunha pode parecer pretensiosa, mas o nome é proveniente de uma pesquisa anterior que a classificou como uma das cavernas inundadas mais profundas do Brasil. E todas as expedições realizadas até o momento indicam que ela ultrapassa os 220 metros de profundidade.

Assim, a lagoa continua misteriosa porque até o momento ninguém descobriu um fundo para essa formação.

Dos números eu tinha a consciência por causa de um folheto que achei na cidade. Mas da realidade, me faltava o real discernimento.  Eu não estava apreensivo naquele momento inicial e minha avaliação era que tudo estava “bem”.

Como estava enganado…

IMG_0005Aquele seria meu primeiro mergulho autônomo e eu só conseguia me preocupar com as orientações do instrutor e, sobre como deveria proceder embaixo d’água. Eu já sabia nadar então queria entender bem como seria a utilização correta do equipamento de respiração.

Importante comentar, eu não sou um mergulhador credenciado, ou seja, nunca fiz um curso de mergulho. Então aquele seria o meu “batismo”. Um mergulho curto de no máximo trinta minutos sempre com o acompanhamento do instrutor.

A lagoa era pequena. De ponta a ponta ela me lembrava quase uma grande piscina localizada no fundo de uma colina coberta de vegetação nativa.

E foi escutando os pássaros que cantavam do meio da mata que observei o instrutor repassar os fundamentos, técnicas e regras de segurança.

Eu já vestia uma roupa de neoprene por isso só foi preciso colocar o aparelho de mergulho e descer os últimos degraus até a lagoa. Coloquei os dois pés na água e novamente o instrutor repassou o procedimento de como usar o aparelho.

Coloquei as nadadeiras, olhei mais uma vez para a mata e submergi.

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Por um instante perdi a respiração e fiquei aturdido. Toda aquela teoria do mundo seco e minha imaginação não foram capazes de me preparar para aquele panorama!

Eu estava flutuando sobre um abismo azul, entre dois  paredões de rocha vertical. Nos cantos, eu podia divisar troncos caídos e pequenos peixes brilhantes que refletiam os raios de de luz. Abaixo um abismo profundo se abria e me causava a sensação de que eu seria sugado para o fundo.

Juliana Alves Albergue 016 309Meu instrutor fez um sinal perguntando se tudo estava bem. Eu puxei a respiração duas vezes antes de confirmar. Nesse momento bolhas prateadas de ar comprimido subiram formando uma imagem ao mesmo tempo maravilhosa e assustadora.

Eu lutava contra alguns medos primais naquele momento. O medo se mesclava com a adrenalina e minha garganta ficava seca enquanto eu tentava respirar pela boca e ignorava a necessidade que sentia de respirar pelo nariz.

A cada metro que eu descia o instrutor me fazia o sinal para equalizar a pressão dos ouvidos.  Eu tinha de controlar meu movimento, apertar o nariz e tentar expulsar o ar com força.

Batismo 1

E em todo o momento, pequenos peixes passavam nadando ao meu lado, bolhas de ar de outro mergulhador abaixo de mim flutuavam refletindo a luz e minha imaginação não parava de trabalhar. Eu pensava em todas as histórias de sereias, monstros marinhos e aventuras submarinas que me lembrava.

Os trinta minutos não existiram. A única sensação que existia era a contagem através das equalizações, dos sinais do instrutor e de cada pequeno detalhe que meus olhos tentavam capturar enquanto “sobrevoava” aquele cenário.

Foi naquele momento eu pensei que deveria fazer um texto sobre a região falando sobre esse momento singular.

Essa foi uma experiência de minutos. Mas até continuo refletindo sobre o que vi e senti até hoje.

Não sei se foi  silêncio ou sensação de total desapego que vem quanto você deixa o seu mundo para se aventurar em um lugar que não é seu meio natural mas, a sensação que senti foi primorosa e com certeza devo repetir mais vezes. 🙂

Espero que tenham gostado dessa minha pequena crônica. Fico no aguardo de seus comentários e desejo a todos um ótimo mergulho nesse abismo que chamamos de VIDA!

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* A Lagoa Misteriosa está localizada no município de Jardim, no estado do Mato Grosso do Sul, a 270 km da capital Campo Grande, 50 km de Bonito, e 36 km de Jardim. O acesso ao local fica noRecanto Ecológico Rio da Prata. Procure na internet por mais informações e se possível aproveite pra visitar. Se um dia você colocar a cabeça dentro d’água, lembre-se de me mandar uma mensagem com a primeira palavra que você pensou. A minha foi um esconjuro daqueles bem típicos que aprendi lá no interior do Paraná. 😉

 

Segue abaixo mais algumas fotos do local:

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