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Só mais uma vez.

A embarcação submergia lentamente enquanto ele, encharcado e com frio, se afastava, agarrado ao último bote salva-vidas.

A compleição forte, os anos de prática no mercado de ações e a fama de “tubarão” nos negócios agora de nada valiam. Apenas o desespero sofria uma alta naquele lugar, dado que, bem perto dali, os últimos mantimentos pairavam e sumiam no arrasto dos destroços que agora se dirigiam para as entranhas do oceano. boat

Sua primeira noite revelou-se escura e silenciosa. Uma escuridão nada agradável durante a qual suas únicas atividades foram secar as roupas e limpar os olhos inflamados por causa do vazamento de combustível e escolher entre o enjoo e uma nítida sensação de intoxicação.

Mas esse torpor não durou muito tempo pois quando o amanhecer se foi,  restou apenas o sol em brasa. Quando estava bem alto ele protegia os olhos com mãos trêmulas e se perguntava se no inferno o calor seria menos incômodo.

Ao final do dia, ele foi se transmutando gota a gota de um homem adulto e forte para uma sombra magra e esquálida, seca e definhante. Mesmo assim, ele ainda manteve a esperança de que seria salvo.

E assim, por dois longos dias ele ainda acreditou que aquele nó que sentia em suas vísceras não passava da certeza de que logo iriam se lembrar dele, de que logo mais sua posição na sociedade seria retomada e que toda aquela desgraça terminaria.

Nada mudou. Nem mesmo uma chuva veio aplacar sua sede. E apenas quando a necessidade chegou ao limite e a única água disponível acabou vindo de sua própria urina foi que ele despertou para sua condição terminal.

A sede já lhe pregava peças e o mundo desperto não diferia em nada dos sonhos. Não consegui mais se lembrar de quantos dias haviam se passado. E já que não tinha mais esperanças só lhe restava o remorso.

Porque ele tinha feito aquilo? Ele se questionava. Porque decidira fazer Aquela viagem?

Impulsivo, cabeça dura, machista, traidor, violento. Cada acusação do passado agora era relembrada com um vigor redobrado. Memórias dolorosas, tal como lâminas feitas de conchas embebidas em sal que agora cortavam fundo seu corpo quase sem vida.

Enquanto morria, suas últimas memórias ainda lutavam para continuar vivas. Ele tentava se lembrar do cheiro doce de sua esposa, das coisas e lugares que ele gostava e mesmo dos sonhos que ainda esperava realizar.

Eram memórias importantes, embora frágeis, que dependiam dos pequenos fios de neurônios que agora morriam, um a um, de sede e calor.

Um axônio se partia, e a lembrança da primeira festa de aniversário do seu filho desaparecia. Um outro se apagava, seco e sem vida, e as músicas e viagens de todo o seu casamento deixavam de ter substância.

neuronioA lembrança de um cheiro, a vibração de um som, o gosto do chocolate amargo que tanto gostava. Um a um foram se extinguindo.

– Porque estou indo embora? – ele balbuciava – Será que eu errei tanto assim para merecer tudo isso? – suplicava – Foi apenas uma noite. Desculpe, desculpe!

Ele suspirava e tentava espremer uma gota inexistente por aquelas órbitas secas já sem vida. E era assim que a consciência daquela mente náufraga se lamuriava e morria no grande mar da vida.

Sua última imagem era a de um rosto estranho que agora se afastava. Já não sabia mais o que havia feito, se tivera filhos, quem fora seus amigos, quais eram suas experiências. Não sabia mais nem quem ele era.

Então a última luz em sua cabeça apenas pulsou.

– Fica comigo! – ele tentava sussurrar – Fica comigo!

E então, mesmo quando os olhos se fecharam, ele continuou segurando firmemente as mãos da enfermeira. Ela só olhou para a médica que agora media o pulso do homem uma última vez antes de dizer em tom neutro.

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– Hora do óbito: 16 horas e 45 minutos. Causa mortis: Pneumonia avançada causada por doença de Alzheimer. Sem família e sem identidade conhecida.

A enfermeira, por sua vez, de uma maneira mais empática apenas falou de uma modo triste.

– Últimas palavras. Fica comigo, só mais uma vez.

A médica só balançou a cabeça, distraída, antes de deixar o quarto para um outro atendimento. Mal tinha ouvido as últimas palavras da enfermeira.

Lá fora, um sol abrasador pairava no céu azul, à espera dos futuros náufragos que agora navegam distraídos no imenso mar que nós chamamos de memória.

Este conto foi desenvolvido durante um exercício do curso ESCREVIVENDO. Se tiver interesse de conhecer e treinar sua escrita, visite o SITE DO CURSO AQUI! 

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