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Reflexões sobre a inspiração.

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A expressão significa estar em constante ebulição, em permanente processo de criação.

Desde pequeno eu sempre tive muitas idéias. Para algumas pessoas, eu era um garoto inspirado, cheio de idéias. Para outros, eu sofria de um excesso de imaginação e era do tipo “Ai! Cuidado que aquele menino é hiperativo”. 😛

Eu com certeza me diverti muito quando criança porque com a imaginação tudo se transformava em algo fantástico e estranho mas, acho que dei muito trabalho para meus pais também. Hehe!

Hoje em dia, quando penso nas inúmeras aventuras que vivenciei através dos livros e brincadeiras de infância, eu concordo que a melhor expressão que poderia me definir é aquela usada por Ziraldo no seu livro sobre o Menino Maluquinho. Eu sempre tive muitos “macaquinhos no sótão”.

Ou seja, dentro da minha cabeça, eu sempre tive muitas idéias e personagens que faziam o que queriam, do jeito que queriam, sem que eu tivesse muito controle sobre eles.

Atualmente, trabalhando com a área de criação e dedicando bastante tempo para desenvolver meus textos, muitas vezes eu paro e fico relembrando todas essas idéias e pensando sobre a inspiração e principalmente, porque nem sempre uma boa ideia significa desenvolver uma boa história?

Esse texto é apenas uma parte dessa reflexão e surgiu depois de uma conversa que tive com alguns escritores que estão participando do NaNoWriMo 2015 onde apresento quatro pontos que envolvem o dinâmico processo da inspiração.

1. Pra começar. O que é inspiração?

Inspiração é uma palavra misteriosa e muito complexa que permeia diversos campos do conhecimento e que pode ser interpretada de diferentes maneiras.

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A inspiração não é apenas uma lâmpada, é um sistema elétrico que pode ser aberto e fechado.

No conceito  biológico, inspiração é o processo de sugar o ar para dentro do organismo, para depois liberá-lo, realizando assim um ciclo respiratório.

No conceito teológico, a inspiração acontece em obras e feitos de seres humanos que estão intimamente ligados a Deus, de tal forma que suas palavras expressem, de alguma maneira, uma revelação divina.

Na Grécia antiga toda inspiração artística ou científica era fruto das Musas, entidades mitológicas filhas de Mnemósine e Zeus. As musas cantavam o presente, o passado e o futuro, acompanhados pela lira de Apolo, para deleite das divindades do panteão.

E por fim, no contexto das escrituras tradicionais Hindus, inspiração tem a ver com o entendimento de seu interior, uma compreensão que surge como uma dádiva divina, mas que também é uma manifestação que se origina dentro de nós através de toda a nossa experiência.

Enfim, como podem notar, a “inspiração” pode ser entendida de diferentes maneiras. Atualmente acredita-se que a inspiração é algo que existe dentro do ser humano e que o motiva a desenhar, pintar, construir, tocar uma música, escrever, etc. E que muitas vezes essa sensação, pensamento ou ideia surge de repente.

Na minha opinião, a melhor explicação está justamente relacionada ao conceito biológico que citei no início. Ou seja, a inspiração é um processo, um ciclo. Não é apenas uma lâmpada que se acende magicamente, ela está mais para um sistema elétrico que pode ser aberto e fechado dependendo dos impulsos corretos que enviamos e recebemos e principalmente na energia que dispendemos para desenvolver boas idéias.

O primeiro ponto que podemos tirar desse capítulo é o seguinte:
A INSPIRAÇÃO É UM SISTEMA QUE PODE SER LIGADO OU DESLIGADO POR VOCÊ.

2. Inspiração x Transpiração:

Dizem que a frase “Talento é 1% inspiração e 99% transpiração” foi cunhada por Thomas Edison. Não posso comprovar a fonte dessa informação, mas posso dizer que concordo inteiramente com o conceito. Não importa se você tem uma boa ideia a cada segundo se você não consegue colocá-la em prática. Uma ideia só é boa se você a usa para desenvolver um texto. Então aqui vai uma frase que eu criei e que todos precisam se lembrar.

De boas idéias o lixo está cheio!

No artigo que escrevi sobre o NaNoWriMo 2015 eu comento justamente isso. As vezes você pode ter apenas a vontade de escrever sobre um tema e aproveitar o momento para colocar todas as idéias no papel, no entanto, lembre-se que nem tudo o que você escrever será diamante puro. Mais provavelmente todo esse texto vai ser apenas mais um pedaço de vidro ou só mais um apanhado de palavras com um valor insignificante.

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Escrever, escrever, escrever.

Digo isso porque inspiração não é uma ideia aleatória que explode na nossa cabeça de vez em quando. Ela na realidade precisa ser alimentada com muitas referências e que depois deverão ser trabalhadas, através de muita transpiração, se tornar um bom texto ou uma boa história.

E importante. Não tem problema se você escreveu um texto ruim! Você escreveu e desenvolveu aquela ideia. Ou seja, arquive e parte pra outro texto e tenta desenvolver um melhor texto agora.

Dessa maneira, se você quer ter boas idéias e criar grandes histórias, primeiro você tem de alimentar o circuito lendo livros sobre o tema, acompanhar o trabalho de outros escritores, escutar boas músicas, participar de cursos, etc. E o principal, você tem de escrever sempre que puder para assim treinar novas técnicas de escrita e assim aproveitar o máximo das ideias que estão borbulhando e surgindo nessa sua cabecinha doida.

Além disso lembre-se. A única maneira de se escrever bem, não é só escrever sempre, mas também é refletir sobre como você pode escrever melhor. Só assim você treinará sua capacidade para usar as palavras, aproveitar boas ideias e referências, mesclando diferentes fontes para assim criar histórias inovadoras e interessantes.

O segundo ponto que podemos refletir aqui é o seguinte:
A INSPIRAÇÃO SÓ FUNCIONA SE VOCÊ TRABALHAR E DESENVOLVER SEU TEXTO.

3. Mens sana, in corpore sano:

“Uma mente sã num corpo são” é uma famosa citação latina, derivada da Sátira X do poeta romano Juvenal e a frase é parte da resposta do autor à questão sobre o que as pessoas deveriam desejar na vida.

Eu já escutei de diversos escritores e teóricos que só assim, mantendo o corpo e a mente sã, que você poderá sempre estar inspirado e ter energia para assim criar grandes textos. No entanto, eu fiquei pensando muito sobre essa tópico e como iria discorrer sobre ele e devo dizer que o termo “sã” é relativo.

Digo isso porque todo o meu processo de escrita atual está totalmente ligado a um processo de equilíbrio ou desequilíbrio entre a mente e o corpo. Algo que talvez tenha um efeito muito característico por causa da minha hiperatividade. Por exemplo, quando deixo de dormir ou treinar artes marciais, minha mente entra em um processo de desequilíbrio e eu fico tomado por uma quantidade de idéias aleatórias, macaquinhos loucos que brotam e morrem sem parar, mas que me impedem de conseguir o foco necessário para colocá-las no papel. É claro que às vezes, quando tenho um pouco mais de presença de espírito e paciência, eu consigo escrever algumas dessas idéias em um caderno ou um arquivo, mas existe ainda um caminho muito longo entre criar uma anotação aleatória e quem sabe um dia, transformar aquilo em um texto mais elaborado.

“Beber é algo emocional. Faz com que você saia da rotina do dia-a-dia, impede que tudo seja igual.” – Bukowski.

Agora o termo é relativo porque existem textos maravilhosos de escritores que produziram e encontraram uma maneira de criar, mesmo com a cabeça cheias de problemas ou de outros “compostos” tais como grandes quantidades de álcool. Charles Baudelaire, Edgar Allan Poe, Jack Kerouac, Aldous Huxley, Bukowski e Stephen King são apenas alguns dos muitos escritores que conseguiram externar sua inspiração, construir seus textos e escrever grandes obras literárias.

A inspiração é um sistema que depende dos impulsos corretos, de saber trabalhar com as ideias e as faz funcionar, de conseguir martelar e transpirar as frases, sentenças e verbos enquanto você trabalha e sobrevive ao equilíbrio ou mesmo desequilíbrio do mundo à sua volta.

E além disso. O que mais podemos usar para alimentar essa máquina movida a inspiração?

O terceiro ponto aqui é o seguinte:
NÃO IMPORTA O QUE OS OUTROS DIGAM QUE É CERTO OU ERRADO. ENCONTRE SEU PRÓPRIO EQUILÍBRIO.

4. Nenhum de seus textos é original! 

Ok. Deixe-me explicar melhor o título. Há mais de 200 anos Lavoisier propôs o princípio da conservação de massas, muito conhecido pela frase: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

A inspiração, as boas idéias e os bons textos também seguem essa lei. Nada do que você cria hoje é 100% novo e nem foi inspirado pelos céus como se surgisse do nada. Mais provavelmente, você está reunindo um pouco dos textos que leu recentemente, misturando com alguma série de TV, alguns quadrinhos e colocando uma pitada de um jogo de computador ou uma conversa aleatória que teve com os amigos.

Nossos textos, bem como nossas criações, fazem parte de um processo de criação e desenvolvimento que acontece em todo o mundo e que mudam a todo o instante, mas que também seguem uma linha de conteúdo e influências pois todos nós estamos inseridos em um grupo social, em um dado momento do tempo e espaço.

Quer dizer então que nunca vou escrever nada de novo? Sim e não. Significa que você tem de estar ciente de suas influências e a partir disso, executar e criar a sua própria interpretação daquele assunto.

Ilustrações originais de Tolkien

Ilustração original de Tolkien. De onde veio essa idéia?

Ou seja, você pode ser influenciado por um pesadelo, um livro de fantasias que foi lançado na semana passada, um novo autor ou uma referência jogada em uma série de TV. Mas se você souber disso, você pode criar e desenvolver um texto mais trabalhado, com menos chavões e frases prontas, um texto onde você pode colocar um pouco mais de você.

Um exercício melhor ainda é você identificar quais as influências dos seus autores favoritos e assim entender o que ele fez em cima de cada uma dessas influências pois, analisando como eles trabalham pode ajudar ainda mais a alimentar o seus sistema.

Digamos por exemplo que você queira entender mais sobre o processo de criação de J.R.R.Tolkien que em 1928 escreveu o livro O Hobbit. Ok. Legal! Pra começar, quais foram as influências de Tolkien para escrever a história de Bilbo? Bem, além de escritor, ele era professor de linguística, serviu como soldado na primeira guerra mundial, amava o poema épico anglo-saxão Beowulf e quando criança, sua mãe, Mabel, lia para ele e seu irmão e depois os fazia ler, contos de fada em latim e grego.

Essas e muitas outras influências criaram a base para que o professor Tolkien escrevesse o Hobbit e depois o Senhor dos Anéis.
Mas de onde vieram cada uma dessas referências e idéias? E quais foram os eventos que Tolkien viveu para influenciar assim cada um de seus textos? Essa é a grande reflexão que falta ser feita sobre o seu trabalho e o trabalho de muitos outros escritores.

Com isso, poderemos fechar ainda mais o sistema da busca de novas inspirações, para assim criar através de muita transpiração e quem sabe um bom copo de vinho, um grande texto ou uma bela história.

E o quarto ponto seria:
NADA É TOTALMENTE ORIGINAL. MAS ISSO NÃO IMPEDE QUE VOCÊ CRIE SUA PRÓPRIA VERSÃO!

5. Finalizando a reflexão:

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Crie seu próprio caminho martelando suas idéias e seus textos.

É claro que todos os itens acima de nenhuma maneira formam um processo inovador ou infalível.

Mas posso dizer que muitos dos itens já me ajudaram na reflexão de idéias e no desenvolvimento de novos textos.

Então não fique esperando a inspiração surgir do nada e crie seu próprio processo de trabalho com muito estudo e páginas revisadas!
Boa escrita;)

E aí, o que acharam dos pontos levantados?
Comece a martelar suas idéias e textos e quando quiserem enviem seus comentários e sugestões. 😉

 

* Tirei a foto que abre essa matéria durante uma viagem que fiz para a Alemanha. Ainda não criei nenhum texto mas quem sabe você possa aproveitar a imagem pra criar sua própria inspiração. 😉

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