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Quando eles chegaram…

Muitos são os seres místicos que vagam pelas florestas e campinas do mundo. Mas raras são as oportunidades de conhecer sua origem. É importante dizer que mesmo os seres míticos têm uma origem e alguns desses seres guardam essa origem com tanto segredo que as vezes o passado parece esconder algo desonroso ou mesmo monstruoso.

A medusa antes de ser um monstro, era uma princesa que tentou competir com uma deusa e terminou com uma maldição que transforma homens em estátuas.

Os ciclopes se escondem amuados em suas cavernas, chorando através de seu olho central enquanto relembram o passado em que sua raça tinha outro nome e olhava com profundidade o mundo através de seus dois olhos.

Ou seja, as vezes eles são criados do barro ou do metal por algum deus ou artífice louco, mas existem vezes em que eles surgem por causa de uma escolha ou mesmo uma maldição.

Essa raça em especial, foi criada por causa de uma piada. Não daquelas que rimos em sinal de respeito de quem mal sabia contar a mesma, ou mesmo daqueles tipos que arrancam gargalhadas e tiram o fôlego.

Essa raça nasceu de piadas maldosas, daquelas que chegam a arrancar sangue de sua audiência enquanto os mesmos riem com a língua entre os dentes. Nasceu de piadas fortes e bem encorpadas, que são capazes de arrancar tudo de um velho homem despindo-o de sua seriedade e falsidade aparente.

Essa raça tem sua descendência direta de um ramo perdido dos Goblins europeus. É importante relembrar que Goblins são seres sanguinários e nojentos, que não gostam de nada que se relaciona às artes ou ao estudo. Eles são criaturas aparentadas dos grandes Ogros ou mesmo, de uma maneira afastada e distorcida, dos estranhos e assassinos Trolls nórdicos.

Mas voltando à esse grupo em espacial, eles eram de um ramo afastado, seco e esquálido de Goblins, que surgiu através dos cruzamentos constantes de uma mesma família que deu origem a um pequeno clã, que habitou por muito tempo uma grande rede de cavernas bem na região daquilo que os seres humanos chamam atualmente de Serra da Estrela, na região de Portugal.

Esse clã havia se afastado dos outros Goblins porque eles não eram como os outros, não gostavam de fazer guerra e comer carne dos animais e seres humanos que haviam capturado. Por serem pequenos e raquíticos eles preferiam compensar sua situação contando piadas e pregando peças e traquinagens. E isso se tornou um hábito inicialmente e depois um sinal de sua cultura tão forte que era usado como rituais de passagem entre os mais jovens ou mesmo uma forma de identificar os líderes do grupo.

Seu grupo era formado pelos menores e mais franzinos membros quando comparados com os outros clãs. Mas diferente das outras “grandes” famílias eles conseguiam encontrar seu espaço junto à outros seres míticos, muitas vezes como servos ou bobos da corte.

É óbvio que isso não durava muito. Pois sua maior especialidade era inicialmente ser alvo de chacotas e piadas das grandes fadas para depois transformar todo ser considerado nobre e sábio como o principal exemplo de humildade. Mas isso não era considerado humilhação, na realidade, quanto mais rápido você fosse afastado ou mesmo expulso de uma corte, mais pontos você ganhava com sua família e mais piadas você tinha pra contar.

Foi assim, com esse estranho costume que seus membros acabavam por dar mais atenção às habilidades do subterfúgio do que do combate. Diferente dos outros Goblins “comuns” que atacavam viajantes desavisados ou assolavam pequenas vilas humanas era muito mais de seu gosto sugar sangue de pequenos animais e se divertir se acabando nas adegas e deixando a culpa recair sobre outra pessoa.

E foi assim por muitos anos. Os mais novos e antigos viviam sossegadamente nas cavernas, enquanto os jovens, buscando seu reconhecimento no grupo, saiam por todos os lugares, cometendo traquinagens e trazendo risadas e gargalhadas para os fracos de coração, que muitas vezes morriam literalmente de tanto rir.

Suas ações se espalharam por todos os lugares, mas muitas histórias tem outros culpados, contam alguns por exemplo que o grande incêndio que assolou Roma foi causado por um deles, que deixou a culpa recair sobre um jovem imperador chamado Nero Claudius Cæsar Augustus Germanicus, que ficou louco depois de tentar convencer os seus pares quem havia sido responsável. Com certeza você já ouviu essa história, senão, ao menos você conhece o fim da piada que o misterioso ser contou ao Imperador, uma piada tão elaborada que mesmo a mente louca do imperador conseguiu transmitir e que se tornou uma expressão popular que hoje muitos falam sobre “ter cuidado ao brincar com o fogo”.

No entanto, mesmo em meio à suas piadas, acabou acontecendo a época chamada por eles como a era da imensa tristeza. Tristeza porque ao invés deles retornarem para suas cavernas, contarem suas piadas e ganharem seu reconhecimento, foram outros e tão variados seres que começaram a se mudar para sua região.

Inicialmente eram outros clãs de guerreiros Goblins que haviam sido expulsos e logo depois foram diversos outros que começaram a habitar locais cada vez mais pertos de suas habitações. Muitos dizem que eram as guerras tribais que fizeram isso, mas um tanto bem maior alega que todos os seres míticos estavam sendo forçados a se mudar para o fundo das grandes florestas ou montanhas por causa dos seres humanos que estavam começando a espalhar mais e mais por toda a Europa, fazendo guerra entre eles, trazendo pestes e queimando bruxas, florestas e muitos seres míticos indistintamente.

E foi assim que pouco a pouco suas tocas e esconderijos começaram a ser invadidos por clãs Goblins rivais ou por criaturas ainda piores. Diversos filhotes e fêmeas que não conseguiam se esconder a tempo eram mortos com uma freqüência cada vez maior e mais perigosa.

Logo depois, quando uma grande fome assolou todo o clã é que os anciãos viram que não existia mais nenhuma alternativa. Eles teriam de se afastar do local onde seu grupo viveu por séculos por que senão aconteceria o impensável, não existiria mais família para onde retornar, bem com ouvintes para suas piadas.

E foi assim, após vários meses de deliberação, que eles decidiram que algo deveria ser feito, que eles deveriam mudar todo o seu grupo para algum lugar onde existisse poucos seres míticos e se possível poucos humanos com suas guerras.

A idéia do que fazer surgiu inicialmente de um grupo de jovens que haviam acabado de retornar. Algumas das melhores piadas destes jovens faziam menção à quantos buracos eram necessários para afundar um navio mercante ou mesmo quantas laranjas eles deviam chupar para trazer o escorbuto ou uma revolta para uma tripulação humana.

Essas piadas trouxeram para os anciãos a noção que existia um novo continente logo após o grande oceano e quem sabe lá eles poderiam encontrar calma e sossego, menos guerras e quem sabe novos alvos para novas piadas.

No entanto, restava ainda a dificuldade de se transportar os filhotes e fêmeas do grupo, bem como de cada membro macho e risonho. Para conseguir resolver esse problema foi decidido que os únicos que teriam os recursos necessários seriam aqueles que detinham os antigos poderes.

Estes seres eram considerados espíritos por alguns, ou mesmo deuses por outros. Para eles, eram seres de imensa capacidade mas sem nenhum senso de humor. Criaturas com tantos poderes sobrenaturais que tinham a capacidade de facilmente realizar qualquer empreitada.

No entanto, estes antigos poderes, além de não entender ou ligar para piadas, eram mesquinhos e sempre cobravam um preço muito alto. Um preço que exigiria um sacrifício de todos os membros do clã e que talvez transformasse a todos indistintamente.

Vale observar que esses antigos poderes são os mesmos que negociaram com um pequeno grupo de gigantes que à muitos séculos atrás estavam presos em uma guerra tribal sem fim. Esse grupo lutava à muitos anos com seus iguais por causa da comida que era escassa, uma vez que estava acontecendo uma das grandes eras do gelo que haviam atingido o mundo.

Esse grupo de gigantes decidiu que iriam fazer o sacrifício que fosse necessário para conhecer onde existia comida bem como o que seus inimigos faziam. E foi pensando nisso que eles decidiram que deveriam ter o poder de ver o futuro. De todos aqueles que eles colocassem os olhos, inclusive deles mesmos.

E foi assim, negociando com os antigos poderes que dormiam embaixo de uma grande geleira que eles ganharam o poder de ver o futuro de tudo aquilo ou aqueles que eles vissem. Como preço, foi exigido de todos, de seus filhos e filhos por toda a descendência, um dos seus olhos.

E assim uma guerra foi vencida. Mas, daquele dia em diante todos passaram a ser chamados de ciclopes e todo o seu grupo degenerou, suas famílias se separaram e cada um deles começou a enlouquecer pouco a pouco.

Por que isso aconteceu? Pensem nisso. Pensem na “dádiva” que eles pediram e tiveram acesso. Por um momento reflitam nas vantagens de saber o futuro e pensem novamente sobre como é olhar para um ser e conseguir observar seus sucessos e escolhas, mas também todas as suas dificuldades, vicissitudes e desgraças enquanto ele se encaminha para a morte que cerca a todos.

Se você pensar bem, fica fácil entender o porquê deles viverem sozinhos, no fundo de cavernas que demoram muito tempo para mudar. É por isso que eles se escondem e fogem de ver o seu reflexo e agem como loucos toda vez que encontram alguém. Eles são assombrados pelas visões do futuro, principalmente pela visão da morte que sempre os encara no final.

Mesmo assim, foi com esses antigos poderes que os mais honoráveis e velhos machos do grupo negociaram, ficando com a difícil tarefa de decidir o que eles iriam ter de sacrificar. No entanto, diferentemente de muitos outros seres que fizeram o mesmo, eles não fariam um sacrifício baseado na guerra, no sangue ou na cobiça. Se dependesse deles, tudo seria decidido no meio a um grande concurso de piadas sujas.

E foi assim que aconteceu. Eles decidiram quando e o que seria sacrificado e no momento que retornaram para as cavernas, iniciou-se os preparativos. Tudo começou com um grande chamado que foi enviado para todos os membros da família por todo o continente. Era necessário que todos retornassem até a próxima lua cheia, para assim participarem do grande êxodo.

Foi nessa época, mais aproximadamente no ano de 1300 dc que a Europa foi assolada por uma estranha onda de “problemas”. Incêndios, peste e pequenas desgraças começaram a ocorrer em diversos lugares, sempre quanto algum membro do clã passava enquanto voltava para casa.

Poucos sabem disso, mas muitos castelos foram queimados e cidades foram destruídas não por causa da guerra ou da peste negra, e sim por causa de algumas piadas um pouco mais fortes que eles fizeram pelo caminho de volta. Seria a última vez que eles passariam por lá, então, existia uma chance que não poderia ser desperdiçada com piadas que não fossem no mínimo contundentes e cortantes ao extremo.

E foi assim, quando a lua cheia se formou no céu, que todos os membros da família já haviam se reunido e estavam preparados para a grande partida. Primeiro foi preciso que todos descessem das montanhas e se deslocassem em direção ao grande mar azul. Essa parte foi fácil.

Chegando lá, e aproveitando para sentir os ventos fortes e toda a calmaria dos mares é que todos os 15 anciãos guiaram suas famílias e filhotes a fazer o grande sacrifício em nome de todos.

No momento que eles disseram qual era o sacrifício, quinze corpos se dissiparam ao vento tomando a forma de grandes gaivotas com imensas asas e cada membro restante foi assim se aproximando e sumindo embaixo de suas asas. Quando todos sumiram o vento começou a soprar em direção a terra prometida e os grandes pássaros alçaram vôo seguindo o fluxo do vento.

Muitos dias se passaram enquanto as grandes gaivotas planavam ao vento. Sua aparência era magnífica, belas aves gigantes que tinham os corpos recobertos de penas brancas que brilhavam ao sol como os cabelos e barbas dos antigos anciãos.

Mas além de suas penas brancas, suas asas eram recobertas de penas multicolores, eram penas vermelhas, azuis, amarelas e verdes, cada uma representando a essência de um membro da família que eles carregavam.

No entanto, apesar do seu tamanho e força cada uma dessas grandes aves apresentava um defeito aparente. Elas só tinham uma pata, que crescia bem no veio do ventre. Uma pata grande e forte que ficava no lugar onde antes existiam duas.

E assim, dias se passaram, e as grandes gaivotas grasnavam umas as outras com se contassem piadas, foi assim até o momento que eles começaram a descer em direção a um enorme continente verde, coberto por inúmeras florestas cheias de animais e habitadas, pelo menos naquele momento por pouquíssimos humanos.

Quando as grandes gaivotas pousaram nas praias cada um olhou novamente para o mar e para o céu e agitando suas asas começaram a grasnar como se gargalhassem. Enquanto faziam isso, cada pena se desprendia e caia no chão na forma de um novo ser, um ser renascido, diferente daqueles que haviam iniciado a viagem.

E foi assim que os quinze anciões sumiram enquanto todos os seus parentes surgiam deitados na areia quente do novo continente. E foi assim que, entre sorrisos e piadas, dezenas de pequenos seres subiram a praia em direção da mata. Eles sabiam do sacrifício que haviam feito, principalmente por seus anciões, mas eles haviam deixado como um presente, novas e incríveis capacidades para todos os seus descendentes.

Apesar de terem agora apenas uma perna, eles eram capazes de se mover rápido e em silêncio. Podiam se transformar em pequenos rodamoinhos de vento, mudar de forma para pequenos animais noturnos como pequenos morcegos. Além disso, se fosse necessário eles podiam ficar invisíveis por breves momentos.

Seu único compromisso com o passado era honrar os anciãos e seu sacrifício, renegando sua antiga descendência brutal e sempre se lembrando da importância de uma risada ou uma boa traquinagem.

Assim, depois que fundaram sua primeira toca nas cavernas escondidas nas florestas, eles retomaram a tradição de mandar seus jovens para a superfície, visando assim realizar as maiores e mais elaboradas traquinagens que seu rito de passagem exigia.

Inicialmente os animais e seres míticos daquele continente eram seus alvos, mas pouco a pouco, enquanto o número de seres humanos aumentava, eles iam tendo novos alvos. Seus favoritos acabaram sendo reconhecidamente todos os humanos que chegavam de navio e estavam tentando criar fazendas, estradas e cidades nos séculos seguintes.

Fazia parte de seu repertório o hábito de esconder brinquedos, soltar animais dos currais, talhar o leite, derramar sal nas cozinhas, fazer tranças nas crinas dos cavalos ou mesmo roubar criaturas dos povoados e largá-las em lugares de difícil acesso. Quando não tinham nenhum alvo em potencial, adoravam se transformar em um redemoinho de vento e sair por aí espalhando folhas e poeira para todo o lado.

Os antigos indígenas os confundiam com os guardiões das florestas e os chamavam de Yaci-Yaterê, Taperê. Já os humanos estrangeiros que chegavam e escutavam isso começaram a chamá-los de Pererê Sá Pereira ou por fim de Saci Pererê.

E assim revelamos a origem de um dos seres míticos mais famosos e populares da cultura brasileira. Um ser que não se importa com sua origem ou mesmo sobre o que pensamos deles. Um ser que guarda dentro de si apenas um desejo simples, o de contar uma ótima piada, principalmente se nós, seres humanos, estivermos fazendo parte dela.

Sendo assim, olhe com mais cuidado quando você não encontrar as chaves de casa ou mesmo quando o pneu do carro estiver murcho e seu estepe estiver faltando. Sempre que algo estranho ou mesmo vergonhoso acontecer, olhe à sua volta.


Quem sabe você não enxergue um rodamoinho cheio de sacolas plásticas voando próximo de você. Fazendo aquele barulho característico de amassar que lembra uma risada velada. Quando fizer isso, ria também, essa é a melhor receita no final das contas…

FIM, por enquanto.

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