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Contos de Fadas não são histórias infantis.

1. Contos de Fadas não são brincadeira.

lobo mau

Lobo Mau?

A origem dos contos de fada nunca foi uma brincadeira de criança porque as tramas criadas pelos camponeses envolviam muitas vezes cenas de sexo, violência e fome.

Os detalhes violentos e libidinosos das histórias que povoavam aquela época foram criados e passados de geração para geração por trabalhadores analfabetos, que se sentavam à noite em volta de fogueiras para contar histórias. Nestas reuniões, ou veillées como era chamado pelos franceses, as mulheres narravam seus casos enquanto fiavam e teciam, o que originou expressões como “tecer uma trama” e “costurar uma história”.  Enquanto isso, os homens consertavam suas ferramentas ou quebravam nozes sem descanso pois, aquele era o universo dos camponeses franceses pré-Revolução, nos séculos 17 e 18.

Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Branca de Neve, João e Maria, A Bela Adormecida e outros contos de fadas eram disseminados sem rodeios, e todos os contadores de histórias caprichavam nos detalhes sórdidos e escabrosos. Isso acontecia porque, naqueles tempos, elas não eram exatamente histórias infantis. Inclusive naquela época não existia ainda uma distinção clara entre infância, adolescência e idade adulta. Esses contos eram piadas e lendas, maneiras perfeitas de se unir a comunidade em volta de uma fogueira que criavam assim uma forte tradição oral.

Se você ainda não conseguiu entender, lembre-se que não existia naquela época a internet, a televisão, o rádio e nem mesmo o processo de produção de eletricidade como conhecemos hoje. O cientista Michael Faraday, por exemplo, só descobriu a indução eletromagnética em 1832 e o Padre Roberto Landell de Moura, Brasileiro, faz a primeira transmissão de palavra falada, sem fios, através de ondas eletromagnéticas somente em 1893.

2. Inspiração no cotidiano.

A França no século XVII

A França no século XVII

Voltando ao tema. A inspiração dos trabalhadores nascia do cotidiano. Enquanto a casa e a aldeia ofereciam segurança, a estrada e a floresta eram representantes do perigo e do desconhecido. E a crueldade sempre estava presente nos roteiros porque a realidade do mundo no século 16 envolvia guerras, pobreza, fome e morte. Por exemplo, em João e Maria, os pais abandonam as crianças na floresta por que não tem mais como alimentá-las.

Muitos de nós não tem acesso a essas versões originais e mais “pesadas” por causa de uma série de novas histórias que foram disseminadas para a sociedade por escritores como o francês Charles Perrault, os alemães Jacob e Wilhelm Grimm e o dinamarquês Hans Christian Andersen, que entre o fim do século 17 e o início do século 19 pesquisaram, recolheram e adaptaram as histórias contadas por camponeses para um formato mais “palatável”.

Os irmão Jacob e Wilhelm Grimm

Os irmão Jacob e Wilhelm Grimm

Tudo começou a mudar e os contos começam a ter nuances de contos de fadas com final feliz a partir do final do século 18. Nesse momento começou a existir uma distinção maior entre a infância e a vida adulta. E é nesse momento da história que entraram em ação Perrault, os irmãos Grimm e, mais tarde, Andersen. Eles não foram os primeiros a passar para o papel as histórias dos camponeses, mas foram os mais bem-sucedidos em sua adaptação ao gosto da nobreza e das crianças. Os Irmão Grimm foram contratados pelo Governo Alemão para criar histórias mais “nacionais” enquanto Perrault, por exemplo, incluiu comentários sobre os costumes e a moda das elites em suas versões para dar uma cara à nação francesa.

O que esses escritores fizeram em seu Contos foi o que, de certa maneira, faziam os contadores de histórias das aldeias. Eles utilizaram elementos da sociedade da época, eliminaram os detalhes violentos ou de conteúdo sexual e incluíram uma “moral para a história”.

3. Adaptando as histórias:

lobo bom

Lobo Bom?

A adaptação de uma história através do olhar de um escritor é uma realidade que sempre existiu desde que começamos a descrever, desenhar e finalmente escrever sobre monstros, castelos, heróis e todos os demais arquétipos que brilhantemente foram dissecados e revelados por Jung.

As histórias sofrem adaptações e mudam de contexto a todo o momento. Deuses Nórdicos e heróis gregos, lendas chinesas ou mitos brasileiros. Independente de cada diferença cultural, sempre poderemos reconhecer o contexto de uma história que foi adaptada a realidade do momento. Histórias sempre serão contadas e na maioria das vezes ela envolverá nossa realidade e nosso imaginário.

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Ótima reflexão sobre o assunto!

Por isso, tome cuidado em dizer que adaptaram mal uma história ou que destruíram sua origem. A única regra de uma boa história é que ela sempre pode e deve ser adaptada de forma a criar uma nova reflexão.

Cito aqui como exemplo o  maravilhoso quadrinhos intitulado Fábulas, ou no original em inglês Fables. Uma série de histórias em quadrinhos publicado pela DC Comics através do selo Vertigo desde 2002. Sua história apresenta várias personagens de contos de fadas e folclore que foram expulsas de suas Terras Natais por um inimigo desconhecido, chamado simplesmente de “Adversário”. Para sobreviver elas então viajaram para o mundo “mundano” e formaram, na cidade de Nova York, uma comunidade clandestina conhecida como Cidade das Fábulas.

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Fables

Essa obra é brilhantemente escrita por Bill Willingham e desenhada majoritariamente por Mark Buckingham. Após seu lançamento, Fábulas foi recebida com elogios de críticos especializados e leitores e já recebeu diversas honrarias da indústria de quadrinhos, incluindo múltiplos prêmios Eisner. A história também foi adaptada para um jogo criado pela Telltale Games chamado The Wolf Among Us. Inclusive, a imagem que abre essa matéria, é justamente uma cena do game onde Bigby, o “Lobo Mau” briga com o Lenhador das histórias.

4. Apenas mais uma versão:

E como forma de terminar esse artigo, deixo abaixo a minha adaptação particular de um, ou vários contos de fadas. Espero que gostem!

Parceiros no crime.
J.B.Alves

O Lenhador novamente se encontrou com seu parceiro para planejar o próximo golpe. A semana passada ele foi a vítima inocente. Agora era a vez daquele maldito Lobo encardido.

Como combinado, o Lobo iria até a casa da velha e, fingindo ser uma besta ignorante e sanguinária, iria brincar com os sentimentos da anciã até a chegada da netinha. Aí então, ele apareceria e a usaria como refém para roubar todo o dinheiro que ela estivesse escondendo.

Ele já havia acompanhado os passos da garotinha, estrada a fora, a mais de uma semana. E como sempre, a pequena ignorante repetia inocentemente o mesmo ritual de se desviar do caminho, para adentrar o velho pântano para colher Nenúfares.

Esse desvio era providencial e permitiria que o Lobo chegasse antes na casa daquela ladra decrépita.

Sim! Nós já sabiamos do passado sórdido dela e de como, junto com seus sete comparsas anões, ela conseguiu extorquir todo o dinheiro daquela princesa tonta lá do reino do Sul. Eu só não entendia como esse papo, envolvendo fotos picantes no celular, havia funcionado.

No início tudo correu muito bem. Enquanto eu fiquei pra trás, acompanhando a pequena menina de roupa vermelha, o Lobo foi correndo para a casa da velhota. No entanto, quando ele começou a fazer o discurso padrão que havíamos combinado a velha jogou baixo e, se achando corajosa, citou o fracasso antigo que meu parceiro no crime tivera com aqueles três bacons delinquentes.

Isso, compreensivelmente, conseguiu tirar o Lobo do sério, tanto que ele não se aguentou e acabou engolindo a velha inteira!

Por um instante eu pensei que tudo estava perdido e que ele havia posto todo o plano a perder. Mas, quando a garotinha apareceu e se desesperou ao ver aquele mentecapto vestido com o penhoar ensanguentada da coisa antiquada, foi aí que eu aproveitei.

Primeiro eu, o famoso Lenhador das histórias, apareci galantemente e lutei com o malvado “monstro” para assim salvar a adorável garota e sua vovozinha.

HeHe! A velha ficou tão agradecida quando tirei ela de dentro do Lobo  e joguei ele no rio, que ela abriu o cofre e me pagou uma grande recompensa.

O Lobo não teve problemas de se recuperar e a noite terminamos de afanar todo o tesouro bem debaixo do nariz adunco e verruguento dela.

Semana que vem repetiremos o processo. Só que dessa vez , eu vou pagar a dívida para meu velho parceiro pois nosso trabalho será de desalojar, à força, aqueles porquinhos.

Colocaremos suas casas abaixo pois um Rei mentecapto resolveu que todo aquele terreno e as florestas adjacentes são perfeitas para a construção de um mega estacionamento e um shopping center.

Tudo porque ele resolveu marcar um casamento com aquela empregadinha dos sapatinhos de vidro! Vai entender…


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Por fim e não menos importante, quero desejar a todos um Feliz 13 outubro! Dia Mundial do Escritor e dos Direitos Autorais. 😉

“Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.”
Clarice Lispector
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*Importante:
Diversas fontes e trabalhos acadêmicos foram utilizada para a criação desse artigo. E nenhuma imagem acima foi criada pelo autor desse site e são meramente utilizadas para ilustrar o conteúdo apresentado.
Tentei citar a maioria das fontes, mas caso algum dos itens ainda viole qualquer regra de copyright, por favor me informe que eu farei a devida alteração ou citação.
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1 responder
  1. Sergio Ricardo M. da Silva
    Sergio Ricardo M. da Silva says:

    Podemos incluir, na lista de histórias que sofreram modificações ao longo do tempo, e foram suavizadas, as das Mil e Uma Noites, a de Frankenstein, a do Corcunda de Notre Dame, a dos Três Mosqueteiros, a de Dom Quixote, e a de vários outros clássicos da literatura universal. Literatura infantil foi a de Monteiro Lobato, o Sítio do Pica-pau Amarelo, e a de outros autores que, no século XX, miraram, ao escreverem as suas histórias, as crianças. Literatura infantil é invenção moderna.

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