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Apenas uma questão de perspectiva…

Radiante, o grande Sol pulsava iluminando e aquecendo a imensa escuridão. Enquanto isso, o fazendeiro limpava o suor do rosto e olhava ao longe para os diversos animais que pastavam na campina.

Era apenas mais um dia, como todos os outros dias.

Para um, a preocupação era se as reses estariam prontas para o abate nas próximas semanas. Para outro, explosões atômicas que consumiriam diversos planetas, pipocavam aqui e ali e de maneira ocasional enquanto seus raios percorriam o espaço e tocavam asteróides, cometas, luas e mundos distantes.

Ou seja, era apenas mais um dia, daqueles cheios de perspectivas.

Ele, não tinha olhos, mas via o infinito através da radiação. Não tinha braços e pernas, mas sentia o universo de maneiras impensáveis, com uma riqueza de detalhes que só as estrelas de sua grandeza conseguiriam.

O outro tentava ignorar o suor que escorria pelo rosto queimado mas, às vezes, suas mãos calejadas se lembravam de limpar o excesso de água e pó que se acumulava em suas sobrancelhas enquanto, com dois passos rápidos, percorria o brete e saltava uma cerca indo em direção aos animais.

Foi então que, guardadas as devidas proporções, tudo aconteceu.

Em algum lugar do tempo e espaço próximo dele, uma pequena forma de metal se moveu lentamente em sua direção. Às vezes soltando minúsculos jatos de gás infinitamente menores que os seus, visando assim se aproximar um pouco mais.

Para outro, a três metros do curral, suas botinas gastas pisaram fundo em um velho formigueiro. No início, ele não notou nada de diferente, mas quando levantou o pé direito, ele sentiu o solo ceder e os restos daquele extenso labirinto vieram junto quando ele pisou.

O Sol, de uma forma que só ele compreende, conseguia sentir as pequenas antenas de metal que transmitiam sinais e ecos na direção do terceiro planeta de seu sistema solar. Já o fazendeiro, desviava os olhos dos raios do sol e olhava para baixo, e por um instante, compreendia o que tinha feito.

A pequena forma de metal deixou de se mover e se abriu, deixando sair de dentro dela, outra forma menor ainda, revestida de plástico, metal e vidro. Dentro a casca, existia uma substância mole, que pulsava e se mexia composta quase que inteiramente de oxigênio, carbono, hidrogênio e uma série de outras pequenas coisas que encapsulavam uma quantidade maior ainda de curiosidade, esperança e medo.

Um pouco ao longe, o fazendeiro limpava com as mãos grossas e sujas os restos do formigueiro que haviam ficado presos na botina. No final, retirou com os dedos gastos de unhas quebradas, os restos de uma grande formiga vermelha. E olhando profundamente para a forma encarquilhada e distorcida daquela pequena criatura, refletiu por um momento como todas as coisas morrem um dia. Algumas fazendo aquilo que sempre quiseram outras de forma inútil, súbita e vazia.

Mas a outra pequena forma ainda se debatia, sonhando e suspirando, enquanto flutuava lentamente  pelo ambiente hostil. Sem o cordão umbilical que o ligava ao pequeno objeto de metal, talvez ela tivesse o mesmo fim que o inseto.

Ele guinchava sinais de rádio para o objeto de metal, enquanto mexia em alguns painéis que refletiam e absorviam diretamente uma pequena porção dos raios solares. E com isso, o grande astro podia sentir o temor, o respeito e o amor que a pequena forma tinha por ele.

É, hoje tinha sido o dia daquela formiga e talvez de várias outras que estavam naquele formigueiro. Amanhã, talvez o próximo a ser esmagado pela vida fosse o fazendeiro. Mas não seria hoje. Pois hoje, ele tinha muito trabalho a ser feito.

Pensando na mesma coisa, foi com esforço e lentidão que a pequena forma terminou o que estava fazendo e retornou para sua pequena casca de metal. Instantes depois,  com um pouco mais de energia e alento, ela começou a retornar em direção do pequeno satélite que circundava o terceiro planeta.

E quase ao mesmo tempo, o fazendeiro de forma quase que carinhosa, colocava a formiga no fundo do buraco que antes formara um imenso complexo subterrâneo, cheio de túneis e vida, invisível aos olhos dos homens.

Mas haviam se passado quatro milhões e meio de anos e esse não foi o primeiro e nem o único pequeno ser que demonstrou respeito a outro. Quem sabe, quando ele, o Astro-rei estivesse um pouco mais velho e forte, ele pudesse retribuir isso, abraçando o planeta e sentindo mais calorosamente aqueles breves e curiosos habitantes.

Já o fazendeiro, arrastou duas grandes porções de terra e cobriu o buraco. De pé, enxugou a testa com o braço e bateu por duas vezes a botina surrada no monte de terra. Olhou uma última vez para os restos agora quase invisíveis, daquele velho estrutura e se foi, em direção dos animais protegendo os olhos do sol.

“Melhor morrer trabalhando do que ser apenas um desocupado” foi seu último pensamento antes de esquecer por completo do pequeno enterro que realizara.

E para o grande astro, restava apenas a comparação dos sentimentos daquela pequena criatura. Sentimentos que eram diferentes, mas tão fortes quanto a energia que os planetas e luas tinham por ele.

Ambos tinham em seu interior um sentimento, uma intenção simples e pura. Um respeito inato à grandiosidade do universo, independentemente da realidade de cada um. Pois enquanto o tempo do Sol e dos planetas podia ser medido em pouco mais de alguns milhões de anos, no caso daquele fazendeiro, formiga ou astronauta, a afeição se acendia e apagava por apenas alguns breves instantes.

Pois tudo enfim, não passava apenas de uma questão de perspectiva.

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Apenas uma questão de perspectiva by JBAlves is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
Based on a work at http://criadordemundos.com.br/wordpress/2014/08/29/apenas-uma-questao-de-perspectiva/.

2 respostas
  1. Cão Babão
    Cão Babão says:

    Caaaara, adorei esse conto. Estou vindo de lá do NaNoWriMo e gostei muito de ler isso aqui. Sou forçado a comentar esse monte de besteiras porque o que eu iria comentar foi quase exatamente a última linha de seu conto. Boa sorte com suas 50.000 palavras (ou mais) mês que vem

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