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A misteriosa origem dos filhos D’água.

“A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos. Viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais […] A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama, pisca e brinca, pisca e estuda, pisca e ama, pisca e cria filhos, pisca e geme os reumatismos, e por fim pisca pela última vez e morre”.
“E depois que morre?” perguntou o Visconde.
“Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?”
Monteiro Lobato

Em muitas dessas histórias existe sempre a presença de figuras diferentes e encantadoras que às vezes são confundidas com os elementos da natureza.

Observamos muitas vezes que as lendas nos contam de belas mulheres feitas do vento sul, que com suas vestes flutuam silenciosas pelas campinas do mundo, outras vezes, podemos escutar histórias de seres feitos de fogo, que de tão belos tiveram seus amantes queimados num abraço.

O mitológico e poderoso Poseidon.

Nesse momento, vamos conhecer a história de um grupo de seres formados pelo elemento água, domínio do mitológico e poderoso Poseidon, que se misturou ao barro dos descendentes de Adão e que veio habitar os lagos e rios do Brasil.

Conta-se que na época que os homens ainda estavam aprendendo como era vasto o mundo o belo rio Achelouse se apaixonou por uma ideia, uma musa inspiradora chamada Terpsícore em um baile local promovido pela corte das altas fadas. E foi dessa paixão que nasceu um grupo de criaturas conhecidas como Sirénios.

Como o pai, eles eram belos como as águas, mas perigosos como o afogamento. E como sua mãe, eram lindos e podiam inspirar as pessoas com sua voz e dança. Quando podiam, cantavam para o mar, por vezes para as montanhas. E cantavam com tanta doçura que os animais se distraiam e por vezes sofriam acidentes estranhos. Podemos citar alguns exemplos de sua influência quando observamos algumas aves que se chocam com as árvores, os lêmingues que correm em direção ao mar ou os seres humanos que colidem seus navios quando passam muito perto de sua música.

Como muitos acidentes aconteceram, os seres humanos começaram a espalhar boatos de que eles eram criaturas maléficas, mas a verdade é que nós nunca conseguimos escutar tudo o que a música deles significava.

Dizem que apenas o herói Odisseu conseguiu escutar toda uma canção porque se amarrou ao mastro de seu navio, para poder ouvi-la sem ser distraído. E que foi deste dia em diante que ele definitivamente se apaixonou pelo mar e por sua maravilhosa canção.

Os Sirénios

No início, os Sirénios não tinham corpo, eram como as águas do rio que formavam seu pai. Mas com o tempo, enquanto observavam os seres humanos que começavam a habitar a costa eles começaram a sentir a necessidade da mudança. Foi na Grécia Antiga, quando alguns deles propuseram ao mar uma troca. Eles dariam parte de sua voz para poderem vestir corpos físicos.

E foi assim que surgiu o grupo conhecido como Sereias e Tritões, criaturas parte humano e parte peixe que vivem nas profundezas do mar. E é por isso que quando você escuta o mar, bem no fundo do barulho das ondas, você também escuta a voz que os Sirénios deixaram como parte de sua barganha.

E antes que pensem, essas criaturas também não podiam ser consideradas más ou mesquinhas. Elas continuavam sendo como o mar, misteriosos para os curiosos e traiçoeiros para os desavisados.

E sua maior arma não era sua música, mas o seu silêncio, pois quando se calavam é que eles poderiam retornar por breves momentos a sua condição original invocando assim todo o poder das águas contra seus opressores.

Mas essa ainda é parte da origem das Iaras que na realidade descendem de uma bela sereia chamada Ligeia que tinha como pai um velho tritão casado com uma bela sereia do mar do norte.

Quando Ligeia aprendeu a andar como um ser humano ela decidiu viver parte de seu tempo próximo de uma casa à beira do rio para assim conhecer mais de perto aqueles atrapalhados e nervosos seres humanos. E embora fosse uma criatura do “outro mundo” ela acabou se apaixonando por um belo e incauto jovem de nome Orfeu que vivia por lá.

Esta união foi breve, pois seus encontros eram cheios de dificuldades uma vez que ela sempre tinha de voltar para as águas para descansar e ficar com sua família enquanto ele tinha uma vida seca, porém agitada em terra.

O maior tempo que eles passaram juntos foi durante cinco anos e isso só aconteceu depois de muitos pedidos dele. Ligeia só concordou em viver um tempo em terra firme porque Orfeu aceitou uma condição muito especial. Ele não poderia cantar para nenhuma outra pessoa sem que ela estivesse presente e o autorizasse.

yara

Ligeia

Por que isso? Porque Orfeu havia aprendido a cantar com a voz das águas e somente isso ajudava Ligeia a ficar em terra firme, além disso, ele sempre deveria respeitar os mistérios do outro reino honrando agora, aquela que seria sua esposa.

No entanto Orfeu, além de jovem e incauto, também sofria dos males de ser homem. Ele era orgulhoso e sentia dentro de si uma vontade imensa de impressionar as pessoas a sua volta.

Foi assim que um dia ele acabou cedendo ao desejo e cantou para as pessoas de uma vila próxima justamente no dia em que Ligeia não estava com ele.

E assim, o encanto se desfez, e Ligeia perdeu toda a confiança nas palavras de seu marido. E mesmo grávida de Orfeu ela desapareceu nas profundezas do Oceano.

Ela estava desapontada com o mundo temporário e ao mesmo tempo rígido dos seres humanos. Sendo assim, ela resolveu se afastar o mais longe possível das águas onde sempre nadou visando permanecer mais próxima da natureza e longe da humanidade que estava se expandindo como formigas por todo o lado.

Ela queria se afastar de todos os dilemas e de todo o sofrimento dos homens, de seus anseios, seus sonhos, suas necessidades, sua impotência diante do universo, suas desilusões, seu anseio por amor e sua falta de sentido. E foi assim que Ligeia começou sua viagem.

Orfeu, no caso, continuou procurando por aventuras, e em uma delas inclusive usou das canções que havia aprendido para ajudar outros heróis. E anos depois, sua voz, que era linda para os padrões humanos conquistou o coração de uma bela jovem chamada Eurídice que infelizmente, bem no dia de seu casamento se distraiu por causa de um Fauno e acabou morrendo devido a picada de uma serpente.

Mas para Ligeia isso pouco importava, ela havia decidido viver longe dos humanos e por um tempo nadou na direção oposta da casa dos Sirénios indo habitar as profundezas escuras de um grande rio chamado Amazonas, isso bem no centro do continente sul americano.

E foi assim, nas águas tropicais de outro continente, que as duas filhas da sereia Ligeia e do humano Orfeu nasceram. E desta união elas herdaram a beleza sobrenatural e os dotes da música da mãe, mas também o sangue humano teimoso, revolto e propenso a gostar de aventuras.

Enquanto na Europa os humanos se espalhavam e destruíam toda a magia antiga do mundo, Ligeia criava suas filhas com calma e sabedoria. E as duas, seguindo os passos da mãe, passaram também a acompanhar e ajudar alguns humanos que começaram a aparecer em seus domínios.

Com o tempo inclusive, elas também se enamoraram com alguns dos maiores guerreiros índios que conseguiam atravessar o Amazonas a nado e destes, os netos de Ligeia nasceram.

Seus descendentes se espalharam pelas águas enquanto o nome Ligeia se diluiu e foi sumindo pouco a pouco. Hoje, ela é mais conhecida como a Mãe-d’água, a linda sereia que vive no rio Amazonas e que agora tem uma bela pele morena queimada de sol, profundos olhos castanhos e cabelos negros e longos.

Sua descendência ficou conhecida pelos índios Tupi que deram as netas o nome de y-îara que significa “senhora das águas” e aos netos o nome de ïpupi’ara que significa “monstro marinho”.

Isso aconteceu porque as filhas e netas da Mãe-d’água normalmente se mostravam como peixes ou belas mulheres. Enquanto os netos adoravam atormentar os indígenas adotando a forma de monstros deformados.

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Capitão Baltasar mata o Ipupiara.

Isso mudou quando alguns mercadores vindos da Europa começaram a fazer negócios com os indígenas. Entre eles existiam alguns caçadores de lendas, guerreiros treinados em usar ferro frio como arma ideal contra os seres místicos.

Isso aconteceu em 1564 na praia de São Vicente em São Paulo, local da primeira vila brasileira. Um Ipupiara decidiu tomar a forma de uma criatura de aparência repulsiva com mais de três metros para assustar uma bela índia chamada Irecê que acabou fugindo apavorada até a vila. Lá, o capitão Baltasar Ferreira ficou sabendo do ocorrido e logo se prontificou a enfrentar o monstro.

O capitão matou o Ipupiara a golpes de espada e voltou para contar para todas as pessoas como era bestial, faminta, repugnante e de ferocidade primitiva a criatura.

Deste dia em diante, indignados tanto pela morte do irmão quanto pela descrição que o capitão fizera, todos os Ipupiaras decidiram não mais adotar a forma de monstros e seguindo a tática de suas irmãs só saiam das águas com a aparência de belos homens que usavam as roupas mais belas e caras da época.

Assim, eles apareciam nas festas de forma tão elegante que encantavam e seduziam todas as mulheres. Eles dançavam a noite toda com as mais jovens e mais bonitas da festa e, quando podiam, saiam com elas para passear pela madrugada.

E é essa a origem das Iaras e dos Botos que hoje habitam as águas brasileiras. Belas criaturas feitas de água e música, que ocasionalmente abanam a cauda fazendo-a brilhar ao sol e acabam encantando algum mortal que se encontra na praia.

E é sempre por causa desse encontro que muitos acidentes acabam acontecendo, pois alguns humanos simplesmente os seguem para debaixo da água, se esquecendo de que não sobrevivem muito tempo sem oxigênio.

Aqueles que não se afogam, quando voltam trazem nos olhos o brilho de outros reinos, pois avistaram o limiar de um universo quase incompreensível à mente humana.

E é assim, depois de terem se deparado com esse reino submerso, que muitos poetas e músicos, dramaturgos, visionários ou místicos surgiram enquanto tentavam descrever sua experiência.

Olavo Bilac, por exemplo, descreveu lindamente sua experiência através das seguintes palavras:

Vive dentro de mim, como num rio,
Uma linda mulher, esquiva e rara,
Num borbulhar de argênteos flocos,
Iara De cabeleira de ouro e corpo frio.

Entre as ninféias a namoro e espio:
E ela, do espelho móbil da onda clara,
Com os verdes olhos úmidos me encara,
E oferece-me o seio alvo e macio.

Precipito-me, no ímpeto de esposo,
Na desesperação da glória suma,
Para a estreitar, louco de orgulho e gozo…

Mas nos meus braços a ilusão se esfuma:
E a mãe-d’água, exalando um ai piedoso,
Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.

Mas e hoje? Você pode se perguntar. Agora que os seres humanos se espalharam e estamos presentes em todo o lugar. Será que a Mãe-d’água continua vivendo no fundo do Amazonas? Será que você pode encontrar seus filhos espalhados por todo o canto? Eu acredito que sim! Mas é preciso que você preste bastante atenção aos sinais a sua volta.

boto

Cuidado com o boto!

Antigamente, por exemplo, você podia identificá-los por causa do forte odor de peixe e do hálito de maresia. No entanto um bom banho e uma bala de menta ou pasta de dente acabam acobertando isso. Mas existem outros sinais a serem considerados.

Primeiro todos eles tem uma bela voz. Segundo, todos, sem exceção, tem a mania de paquerar. E terceiro, todos eles precisam ficar em contato com uma grande quantidade de água.

Pensando nisso, talvez seja um boto aquele belo moço cantando no fundo da lanchonete a beira mar, ou talvez seja uma Iara aquela linda professora de natação que todo jovem aluno se apaixona.

Sei que todos eles trazem dentro de si um pouco do mar, e de vez em quando eles voltam para casa para poder visitar a sua mãe e quem sabe, uma vez mais, respirar novamente o ar daquele misterioso, sedutor e perigoso mundo da Mãe-d’água.

FIM, por enquanto.

 

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A misteriosa origem dos filhos D’água by JBAlves is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.

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