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A boa senhora da casa ao lado.

 

Não existe essa coisa de magia. Mesmo assim, ela continua fazendo efeito em nossa imaginação.”

As pessoas gostam de histórias. Algumas buscam escutar sobre dragões e princesas num distante mundo prateado, outras querem saber sobre o que aconteceu com os soldados japoneses e americanos durante a segunda guerra mundial.

No meu caso, eu sempre gostei daquelas histórias simples, contadas ao pé da fogueira durante a noite junto com os amigos tomando um chimarrão. Sabe, daquelas histórias intimistas que mesmo pequenas ainda assim guardam segredos e mistérios que ninguém realmente compreende mas que todos admiram.

Recentemente eu me lembrei de uma história que envolvia uma casa antiga que ficava na minha rua. Uma casa que era uma mistura insana de diversas construções e por causa disso parecia uma coisa quase orgânica que havia nascido inicialmente como uma casa de madeira e depois resolveu adotar ou crescer cômodos de pedra, palafita e alvenaria.

No fundo dessa casa tinha um grande quintal onde você sempre encontrava rosas vermelhas e brancas de diversos tamanhos, árvores das mais diferentes espécies, ervas de todos os cheiros e cores, cogumelos dos mais diversos formatos e morangos, daqueles bem vermelhos, grandes e doces.

Para mim era uma aventura diferente toda vez que ia brincar naquele quintal. Para chegar até o fundo dele eu me lembro de que tinha de passar por diversos vasos suspensos de samambaias enquanto vários duendes de pedra me olhavam de esguelha por detrás dos arbustos.

A porta da casa era um show em particular. Feita inteiramente de madeira de lei, estava sempre pintada de uma tinta branca e antiga que vivia descascando. Por trás dessa tinta eu sempre enxergava alguma inscrição ou desenho, algo que para mim era misterioso e diferente.

A casa ficava a algumas quadras de meu colégio, por causa disso, eu sempre passava na frente dele quando estava voltando para casa. Ela ficava em uma daquelas ruas calmas e vazias de cidade pequena do interior e o seu muro era baixo o que me possibilitava pular com facilidade quando bem quisesse.

A senhora que morava lá era baixa e gorda com cabelos curtos de um branco tão forte que às vezes eu achava que eram azulados. Quase sempre ela estava usando um vestido longo florido e um avental normalmente sujo de chocolate e açúcar.

Lembro-me bem, tinha apenas doze anos e já era maior que ela. Mas o sorriso dela era gigante e incrível. E sempre que eu pulava o muro e ia brincar no seu quintal ela sorria para mim de maneira sincera e bonita.

Claro que naquela casa eu me sentia protegido e amado. Eu havia perdido meus avós muito cedo e ela não tinha nenhum parente. Então eu sempre a visitava e levava presentes. Ela era minha avó postiça e eu era o seu netinho querido.

Uma das coisas mais legais da casa é que a porta branca e descascada já dava direto para a cozinha. Na realidade, era um cômodo enorme que fora transformado em uma cozinha com diversos utensílios modernos misturados a outros mais tradicionais como um moedor de café e um fogão a lenha.

Logo depois, tinha um corredor que dava para a sala de jantar com uma grande mesa que podia receber até doze pessoas e um espaço formado por um velho sofá confortável, um grande toca discos e uma TV preto e branco SEMP de 1951.

E o cheiro da casa era maravilhoso. Parecia ser uma mistura de pão de queijo com bolo de fubá quentinho. Mas às vezes eu sentia um cheirinho de frango assado e macarronada com muito queijo. Hummm. Era de dar água na boca.

Era por causa disso que todos os dias eu visitava a Dona Natália sempre que podia. Eu aproveitava para fazer minhas lições da escola debaixo das árvores do quintal e assim ganhava um novo quitute antes de voltar para casa.

Os outros garotos da escola não entendiam isso. Na maioria das vezes eles tiravam sarro ou me insultavam por visitar a velha louca da cidade. É claro que eu não entendia nada disso e continuava sempre na minha rotina que era formada por escola, visita a vó Natália e depois casa.

Ela sempre me dava conselhos firmes e diretos sobre a vida. Lembrando-me sobre o que era importante e sobre o que deveríamos deixar passar. Minha mãe ficava agradecida e sempre mandava presentes para ela, pois como trabalhava o dia inteiro fora, ela sentia que o filho estava em segurança brincando naquele quintal.

Foi assim que eu passei minha infância toda, vendo os cogumelos crescerem, os bolos de fubá ganharem diferentes coberturas e os morangos mais doces se tornarem meus lanches da tarde enquanto eu estudava geografia, ciências ou literatura.

E toda vez que eu me esquecia da hora, a Dona Natália me lembrava de que tinha de voltar para casa e me mandava prestar atenção ao por do sol. Ela sempre dizia que “a verdadeira magia do mundo nascia no cair do dia e no nascer da noite”. Por causa disso, sempre que posso, eu ainda continuo a observar o pôr do sol.

Eu acho que em dez anos de idas e vindas eu só encontrei a porta branca fechada por cinco vezes diferentes. A Dona Natália me explicava que era por causa de uma gripe, mas eu sempre desconfiei de outro motivo, pois toda vez que eu entrava na casa no dia seguinte eu encontrava um estranho vaso de barro com a boca tampada no alto do armário da sala.

Eu sempre achei que era porque ela recebia a visita de alguém no dia anterior, talvez de algum parente distante. E essa pessoa sempre deixava como lembrança um vaso daqueles. Eu já havia contado pelo menos uns quinze enfileirados no alto do armário que ficava na sala.

As pessoas da cidade as vezes cochichavam sobre esse vasos. Alguns diziam que eles faziam parte de um pacto que ela tinha feito com os seres da floresta, outros que era um tipo de macumba. Eu escutei uma vez da beata da cidade, que era bem fofoqueira, que ela na realidade guardava nos vasos as almas de todas as pessoas más que haviam tentado invadir ou roubar sua casa.

Eu achava graça disso e continuava curtindo as sombras do jardim enquanto lia um romance do Monteiro Lobato nos fins de tarde. Era realmente maravilhoso passar a tarde toda sentado perto daquelas rosas sentindo o cheirinho do fubá e do café quente que vinha de dentro da casa.

Muitos anos se passaram, mas a memória dessas tardes até hoje me embalam. Quando adolescente minhas visitas começaram a rarear e depois de velho e aposentado eu praticamente me esqueci dos bons momentos que passei naquela casa.

Hoje, mesmo velho e cansado, caduco e avoado eu sempre vou agradecer a Dona Natália pela bondade e compreensão.

Eu sei que fui um jovem maroto, mas eu sempre vou guardar ela e o jardim bem no fundo do meu coração. Deve ser por isso que depois de tantos anos, bem no fim da minha vida que ela voltou a me mandar o bolo de fubá que eu tanto gostava.

Sei que você deve estar me chamando de velho louco agora. Mas se você descer a rua do colégio e olhar a direita, até hoje você pode avistar aquela casa de pedra, palafita e alvenaria, com uma porta branca e descascada e um jardim maravilhoso no fundo.

Se tiver disposição e for educado o suficiente para passar pelos duendes de pedra, ela pode te convidar a entrar e tomar um café. Quem sabe você aprenda alguma coisa sobre o mundo.

Eu aprendi. E ate hoje sou agradecido por isso.

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